 

Patro + Beb = Amor
Marie Ferrarella

 
Ttulo: Patro + Beb = Amor
Autor: Marie Ferrarella 
Ttulo original: Your baby or mine?
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Cynthia M.
Estado da Obra: Corrigida

Ser que aquele homem no despertaria nunca para o amor?
O charmoso patro estava finalmente a ponto de beij-la... Ento, um bebe comeou a gritar a plenos pulmes! E como Marisa Rogers era a bab, teve de fugir dos lbios tentadores para atender  filha dele...
Marisa sonhava com a proposta de casamento de Alec Beckett. Mas o vivo bonito tinha jurado dedicar seu amor  filha pequena... Ainda assim, as refeies noturnas estavam levando a beijos noturnos. Com um pouco de sorte, ele logo perceberia que uma mulher adulta era to fcil de amar quanto um beb.

Captulo I
Ele odiava chegar atrasado. Era um dos traos de personalidade que no gostava nos outros e no admitia em si mesmo. Nos ltimos meses, entretanto, o fato de estar atrasado parecia ser seu destino inevitvel. Era como se ele estivesse fadado a correr atrs de todos os prazos e todos os acontecimentos.
As coisas vinham acontecendo assim desde o ltimo ms de abril. Doze meses impossveis. Um ano inteiro.
Um ano no qual Alec Beckett sentia-se como se estivesse preso aos ltimos cinco minutos de um filme de guerra em que estivesse vendo o heri a correr pelos trilhos, tentando apanhar o trem que o levaria para a liberdade.
No importa o que fizesse, esse trem parecia afastar-se dele cada vez mais.
As coisas sempre pioravam. Ellen despedira-se, avisando com antecedncia de um dia. Era a terceira bab que ia embora em um ano, sem contar as que ele prprio despedira. Parecia que no tinha mais sorte com as babs do que com seus horrios.
 No foi sua culpa, Andrea.
Alec olhou para o beb aninhado em seu colo. Quando os grandes olhos verdes o fitavam daquela maneira, algumas vezes ele tinha a impresso de que a filha tinha o poder de intuir as coisas, que sabia exatamente o que ele pensava e reagia de acordo. No importava que contasse com pouco mais de um ano de idade e que tivesse problemas para alimentar-se sem espalhar o contedo da colher pelos cabelos loiros cacheados. Ela enxergava sua alma.
	Queria que soubesse que nada disso  sua culpa. As coisas parecem estar desmoronando, mas no  verdade. Vamos passar por tudo isso, voc e eu. No du
vide disso. Papai vai conseguir resolver tudo.
A ltima frase no soou convincente nem para ele mesmo.
Andrea sorriu ao som da voz paterna e resmungou alguma coisa ininteligvel numa resposta que ele considerou positiva. O sorriso da filha nunca deixava de reanim-lo. Era o nico ser humano importante em seu mundo virado de cabea para baixo, agora que Cristina se fora.
Um pequeno estacionamento atrs dele encontrava-se atulhado de veculos, na maioria utilitrios familiares, atestando o fato de que as pessoas que assistiam  sesso haviam chegado.
Ele pretendia sair cedo do trabalho, porm Rex o encurralara no corredor, desesperado para trabalhar alguns dados que um pretenso cliente necessitava no dia seguinte  hora do almoo. Aquilo o retardou consideravelmente. Em vez de chegar em casa cedo, Alec terminara meia hora atrasado.
	Puxa, essa histria de ser papai e mame ao mesmo tempo no fica mais fcil com o tempo, sabia?  disse ele, baixando a cabea na direo da filha.
Ps-se a caminho, subindo os degraus que conduziam ao local onde teria sua aula, de um curso chamado "O Beb e Eu".
	Eu sei que voc no tem nada em que se basear para comparar. Mas prometo melhorar. Acho que temos bastante espao para isso.
Ele estava dedicado a melhorar de verdade. Era o que o levara a inscrever-se no curso em primeiro lugar. Seria o tipo de coisa que Cristina teria feito, se tivesse a oportunidade.
Ele mal tivera tempo para lamentar a perda. Num momento ficou vivo, no outro viu-se pai de uma menina com poucos meses. No tivera muito tempo para as lgrimas. Nem para nada, a no ser suprir as necessidades de Andrea e trabalhar.
Era apenas no incio da noite que o tempo parecia estender-se indefinidamente, como uma linha infinita.
Passara-se um ano e ele continuara com sua prpria vida, mas no fora fcil. Alec tinha os dias repletos de trabalho, de forma que no restava oportunidade para chorar ou pensar em sua situao emocional. Andrea providenciava para que boa parte de suas noites ficassem ocupadas. Durante esses doze meses ele manteve suas emoes ocultas, porm ao alcance do pensamento, at que pudesse lidar com elas.
Se  que isso iria acontecer um dia.
	No estou escutando msica  disse ele baixinho, ao abrir as portas duplas do prdio.
As aulas deveriam acontecer no andar trreo, na primeira sala  esquerda, logo aps dobrar o corredor. Se a aula estivesse em andamento ele escutaria msicas infantis.
	E um bom sinal. Talvez a gente no esteja to atrasado assim.
No tinha motivos para acreditar que haveria msica, mas de alguma forma sabia.
A verdade  que no sabia o que esperar de uma aula desse tipo, s que o fato de comparecer seria bom para Andrea. Ele queria que a filha crescesse sadia e feliz, e pretendia comparar impresses com outros pais para saber se estava fazendo as coisas direito.
Talvez algum ali soubesse onde poderia encontrar uma bab confivel para as horas de necessidade. Deus sabia que precisava de um descanso.
Ellen tendo sado na noite anterior e sem ter quem ficasse com o beb pela manh, Alec, em desespero, voltara-se para sua me e dependia dela para cuidar de Andrea durante o dia.
Sorriu consigo mesmo. Roberta Beckett no era o tipo de mulher que aparecia nas pinturas que representavam avs amorosas e caseiras. Na verdade, no se encaixaria na imagem de ningum que pensasse numa av. Porm, no era de se estranhar. Ela ainda preferia ser chamada de Roberta do que de mame.
Aquela mudana iniciara-se quinze anos atrs. Roberta repentinamente sentira-se jovem demais para ter um filho de quinze anos. Foram necessrias algumas mudanas. Como ela no podia diminuir os nmeros da idade, resolveu deixar de ser "mame" e tornara-se Roberta. Ficara em algum ponto entre uma irm mais velha e uma tia excntrica.
Algumas vezes, admitiu Alec para si mesmo, sentia falta da palavra mame.
Olhou para Andrea. Ela tambm sentiria.
Por isso ele precisava compensar as coisas para ela. Freqentar a aula seria uma forma to boa quanto qualquer outra de comear. Pretendia fazer todas as coisas que Cristina no pde, mais as coisas que Roberta nunca fizera com ele. Pretendia dar a Andrea uma famlia estvel, mesmo que fosse a nica na famlia.
Era uma maneira e tanto de comear, atrasado daquela forma.
Apressando-se para dobrar o corredor, Alec deu de encontro a um corpo. Mais macio que o seu. E barulhento. Um grito soou, misturando-se ao berros de uma criana. Em sua pressa de chegar, chocara-se contra uma mulher morena que aparentemente sara do nada, trajando calas colantes prateadas e uma camiseta longa amarrada ao quadril esguio.
Carregada com a bolsa de fraldas e os equipamentos tradicionais para manuteno de bebs, ela segurava uma criana gritando em seus braos.
Por um instante Alec no percebeu se o grito vinha de seu beb ou do dela. Em seguida reparou que ambos choravam, mais de susto do que por qualquer outro motivo.
	Desculpe, eu estava com pressa  disse ele, levantando os olhos e passando automaticamente a mo nas costas da filha para acalm-la.
Marisa Rogers esfregou a cabea, que sofrera o contato inesperado do ombro duro. O homem no parecia particularmente musculoso, mas devia ser. Ou ento carregava um objeto de metal sob a roupa.
	No foi nada, deve ter sido minha culpa  respondeu ela, sorrindo.
Tentou dar um passo para trs, mas algo a impediu,  altura do ombro. Olhando para baixo, percebeu que o broche do seu crach se prendera  malha de l trabalhada que o homem usava.
Embora estivessem em frente  sala, imaginou se ele iria assistir  aula. No o conhecia, e com certeza usava as roupas erradas para lidar com bebs. O traje deveria ser confortvel e macio, no roupas passadas e caras.
Se algum dos dois se movesse, seu alfinete poderia desenrolar a l trabalhada.
	Parece que ficamos presos um ao outro  informou ela, indicando o crach com um movimento dos olhos.
Ergueu Christopher com uma das mos, enquanto a outra tentava desvencilhar o broche, que no entanto permaneceu firmemente preso. Ela comeou a maldizer mentalmente aquele encontro, com o filho esperneando nos braos e tornando impossvel lidar com o crach.
A distncia reduzida, Alec conseguiu saber mais coisas sobre ela do que em circunstncias normais. Os olhos possuam um azul-eltrico que conseguia suplantar o tom da camiseta. Os cabelos, apesar de desalinhados, davam a impresso de terem sido penteados para produzir exatamente essa impresso. Os lbios pareciam maiores do que o rosto ovalado permitia, detalhe que produzia um efeito extico e interessante.
Contudo, ela no estava conseguindo sucesso algum.
	Deixe eu tentar  ofereceu ele.
No instante em que tocou o crach compreendeu seu erro. A situao exigia que ele tivesse um pouco mais de familiaridade com ela para no ser constrangedora. No achou que fosse prudente tocar os seios de uma desconhecida com as pontas dos dedos. Parou o gesto no meio.    
	Pensando bem... talvez seja melhor voc mesma fazer isso.
Um sorriso fascinante surgiu nos lbios dela.
Christopher berrava a plenos pulmes num dos ouvidos da me.
Marisa piscou, como se assim conseguisse bloquear o choro enlouquecedor. Ergueu os olhos para encarar o desconhecido. Ele definitivamente no parecia contente com a situao. Marisa realizou nova tentativa.
	Fique quieto  pediu ela com voz suave.  Mame est tentando se soltar desse homem bonzinho.
Aquilo comeava a ficar ridculo. A aula provavelmente j comeara e ele ficava ali, como se fosse gmeo-siams.
	Acho que com as duas mos seria melhor  sugeriu ele.
	Pode ser. Mas se eu colocar meu filho no cho aqui voc vai presenciar uma boa imitao de coelho correndo, e eu no vou poder fazer nada a menos que voc saiba correr de costas.
A paz que Marisa conhecera antes do filho ensaiar os primeiros passos fora-se para sempre. Coloc-lo no cho naquele instante seria pedir mais um problema. Christopher recordava a todos sua presena com amplos movimentos de braos, pernas e cordas vocais. Essa soluo era contra o bom senso de Alec, mas no parecia haver muita escolha.
	Espere, deixe eu segurar para voc. Fazendo uma pausa, Marisa encarou o desconhecido de olhos verdes. Um sorriso curvou novamente seus lbios. Olhou para a menina rechonchuda nos braos dele.
	Voc parece j estar lotado.
	Posso segurar os dois  ofereceu.
Juntos, os dois fariam uma carga pesada, porm suportvel. O preocupante era o fato de que o dela no parava quieto e poderia criar problemas.
O sorriso de Marisa alargou-se. O homem parecia estar s voltas com o primeiro beb. Ainda assim, como no aparecia mais ningum, naquele instante, a soluo proposta parecia ser a nica alternativa. Estava ficando tarde.
	Est bem, mas  melhor se preparar.
	Obrigado por avisar  respondeu Alec, segurando o menino e recebendo um chute na boca do estmago.
Tentou evitar a careta de dor e surpresa, mas Marisa percebeu.
	Desculpe. Vou me apressar  disse ela, corando. Tomando todo o cuidado para no danificar a malha
de l trabalhada, os dedos soltaram uma das pontas, restando duas presas aos fios. No estava conseguindo realizar as coisas a contento, pelo menos no que dizia respeito ao desconhecido com os dois bebs.
	Mame!!
	Ele tem bons pulmes  comentou Alec, cujo ouvido esquerdo encontrava-se a curta distncia das cordas vocais do garoto.
A observao trouxe para Marisa impresses distantes de uma poca que permanecia esquecida, mas ainda magoava. H mais de dois anos.
	Os melhores possveis. O pai  tenor na pera Metropolitana de Nova York  afirmou ela.
Ou pelo menos, era, da ltima vez que encontrara Antnio.
Alec encarou a morena pensativamente. Se o marido era um sujeito com tanto prestgio, o que estaria ela fazendo ali, presa a um desconhecido? Por que no estaria em Nova York? Reparou que ela no usava anel. Seria divorciada?
O filho agarrou-lhe a orelha, determinado a destruir pela fora bruta o que seus berros no haviam conseguido. Alec recuou a cabea o mximo possvel.
	Ser que podia se apressar, por favor?
	Mais um segundo  respondeu ela, mordendo os lbios.  No consigo acreditar que tenha ficado preso assim s por causa do nosso encontro... pronto! Estamos livres  declarou ela, por fim.  Eu fico com ele, obrigada.
Alec voltou-se, suspirando de alvio, para que ela pudesse apanhar o filho.
	Ele  todo seu.
De alguma forma a afirmao parecia conter um bocado de emoo, pensou Marisa. Pelo menos era um homem honesto. No tentou fingir que segurar seu filho era uma tarefa agradvel. Christopher j mandara embora um bocado de babs em sua poca. Ele era o motivo pelo qual ela aceitara esse tipo de trabalho enquanto tentava obter o doutoramento na faculdade. Interrompera bruscamente os estudos quando dedicara um bocado de tempo  maternidade. Tivera de fazer algumas adaptaes em sua vida quando descobrira que os planos de Antnio para o futuro no incluam um filho. Com um movimento apenas ele afastara a ela, ao casamento e ao filho no nascido.
Andrea agarrou a gola do casaco do pai e ficou pendurada ali como se sua vida dependesse disso. Alec acreditava que dividir seu colo com o espaoso rebento tinha algo a ver com essa atitude.
	Est tudo bem, Andrea. Papai  todo seu outra vez.
Os olhos da mulher deram a impresso de brilhar ao examinar a menina.
	Esse  o nome dela? Bonito.
Alec acreditava que algum tipo de conversa seria natural enquanto seguia a mulher para o interior da sala. No costumava sentir-se  vontade ao falar com estranhos.
	Qual o nome de seu filho?
No havia nada que indicasse o sexo do beb dela, pois a roupa era de cor neutra e o comprimento do cabelo no era revelador. Porm algo dizia a Alec que nenhuma mulher conseguiria berrar daquele jeito. Entraram juntos na sala de aulas.
	Christopher  respondeu Marisa.
	Combina com ele.  bem slido.
Marisa relanceou os olhos pelo aposento. Estava cheio de brinquedos e equipamento ldico novo em folha, tanto adquiridos quanto doados, na medida para dar asas  imaginao. Parecia que todos j haviam chegado. Era hora de comear.
	Obrigada.
Ele a seguiu, imaginando se existiriam lugares marcados ou se as pessoas simplesmente sentavam onde queriam. No podia estar mais fora de seu elemento.
	Sabe alguma coisa sobre a professora?  a primeira vez que eu venho  declarou Alec, olhando ao redor.
Marisa voltou-se para encar-lo.
	Por isso no o reconheci  disse ela, tentando recordar-se de algum nome novo na lista de chamada.
As pessoas iam e vinham com tanta freqncia que era difcil controlar a todos. As aulas eram relativamente desestruturadas, o que se tornava um grande ponto de atrao para os pais. Era um lugar para descansar e aprender o quanto j haviam estragado os filhos. Todos sentiam-se bem depois.
Andrea tentava engolir um pedao do casaco paterno, que j estava mido.
	Acabei de fazer a inscrio.
	Nesse caso seja bem vindo  classe. Sou Marisa Rogers.
Alec sentia-se cada vez menos  vontade. Numa rpida contagem, detectara a presena de apenas trs outros homens presentes. Comeou a pensar se de fato fora uma boa idia matricular-se.
	Parece que a professora  uma dessas pessoas que no levam muito a srio suas responsabilidades.
	Por que diz isso?  quis saber ela, erguendo uma das sobrancelhas.
Ele deu de ombros, olhando na direo da porta.
	Bem, parece que est mais atrasada do que ns.
	No exatamente  discordou ela, com um sorriso estranho.
Antes que ele pudesse perguntar o que a fizera dizer uma coisa daquelas, Marisa afastou-se.
Alec observou-a caminhar at a frente da sala, e a julgar pela forma como os outros a cumprimentavam, concluiu que no parecia estranha ao grupo. Pelo contrrio, todos a conheciam. Segurando Andrea junto ao corpo, moveu-se atrs dela, decidindo permanecer ao lado de algum que j conhecesse os procedimentos. Assim que ela se voltou para dirigir-se a todos, ele percebeu seu erro.
	Desculpe se estou atrasada, pessoal. Por que no comeamos logo?
Havia um bom motivo pelo qual ela parecia saber a rotina. Era ela quem a organizava.
	Um a zero para o papai, Andrea  murmurou ele.
Compreendendo que no comeara com o p direito, Alec moveu-se para o lado da sala. Com sorte, talvez pudesse misturar-se aos outros alunos.
Depois de iniciar a aula com a diviso dos pais e filhos em pequenos grupos, Marisa caminhava ao redor da sala, observando e aconselhando nos casos em que julgava necessrio. Sabia o valor de uma sugesto oportuna ou de uma palavra de encorajamento. Mantinha o recm-chegado sob observao sem pression-lo. Sabia que nunca o vira antes. No teria esquecido um homem como aquele. Ele possua uma aura de liderana, mesmo intimidado por uma classe quase exclusivamente feminina.
Parecia apaixonado pela filha; tinha de ser para passar o que estava passando. Lembrava um peixe fora da gua.
	Muito bom, senhora Berg  disse ela, vibrando tapinhas encorajadores no ombro da mulher.  Basta lembrar de guiar a mo de Shelly.
Alargando o sorriso com um toque caloroso do qual se orgulhava, Marisa abriu caminho at onde Alec se encontrava. Estendido no cho, com as pernas abertas, mantinha Andrea perto dele. No fazia parte de nenhum grupo.
Voc no est fazendo nada  disse ela, ajoelhando-se. Alec, surpreso, limpou a garganta.
	Estou, sim. Estamos sentados aqui, observando todos os outros  respondeu ele, dando de ombros.  Ela parece contente.
Estendeu a mo, segurando a barra da camisa da filha, que tentava escapar para contradiz-lo.
	Ah, mas  uma pena s ficar olhando. No acha, meu bem?
Ela apanhou a menina, pois seu filho brincava com outros pais e crianas. Todos ajudavam a cuidar de Christopher enquanto ela se dedicava aos alunos. Ningum se importava, pois era como um treinamento em circunstncias reais.
	Ela deve queimar essa energia extra que todos os bebs tm, enquanto esto aqui.  Marisa sorriu, observando Alec.  Me parece que a sua j est no fim.
	Ela faz o melhor possvel para isso  respondeu ele, erguendo-se.  Muito bem, o que sugere?
Ainda segurando Andrea, Marisa props:
	Que tal o parquinho? Ela vai ter muita oportunidade de gastar a energia desse corpinho lindo.
	Ou ento quebr-lo  comentou Alec, olhando com ar de dvida para os aparelhos.
Parecia um daqueles que se preocupavam com tudo, pensou ela. No imaginara que ele fosse assim.
	Acho que ficaria surpreso se soubesse como essas criaturinhas so resistentes. Vamos at l, vou mostrar a voc.
Sem esperar, ela comeou a caminhar com a menina para os aparelhos.
	Bem, acho que tambm vou. Na verdade no tenho muita escolha, j que est com minha filha.
Marisa olhou para ele por sobre o ombro.
	No, senhor... Beckett, no ?  Ele assentiu.
 A gente sempre tem uma escolha, no importa qual seja.
Ela disse aquilo com tamanha sinceridade que Alec ficou surpreso.
Deixou-se ficar para trs enquanto ela colocava sua filha numa srie de brinquedos, provocando gargalhadas de prazer. O riso parecia contagioso, porque logo todos, entre pais e bebs, acompanhavam o coro. Alec sentiu que tambm sorria.
Ela possua uma certa aptido natural com crianas, imaginou ele. E parecia gostar de ficar perto delas.
Lentamente uma idia comeou a formar-se na cabea de Alec. Talvez fosse apenas uma fantasia maluca, mas jamais saberia se no tivesse a coragem de perguntar. Ele comeou a ensaiar mentalmente sua abordagem, esperando uma oportunidade para abrir-se com a professora.
Captulo II
Por um instante Alec considerou deixar Andrea no parquinho. Trs das mes se ofereceram para tomar conta dela junto com seus filhos. Por fim ele optou por carregar a filha enquanto acompanhava a gil professora. A verdade  que no gostava de deixar a filha com estranhos, mesmo mes experientes.
Marisa movia-se do outro lado da sala. Para conseguir chegar at onde ela estava Alec mudou de direo trs vezes, como se tentasse apanhar uma borboleta que vai de flor em flor. Os bebs da classe no eram os nicos com suprimento ilimitado de energia.
	Com licena  pediu ele a uma senhora segurando gmeos, um em cada brao.
Finalmente viu-se frente a frente com a instrutora.
	Sra. Rogers, podemos conversar um instante? Com os braos lotados de bebs barulhentos, Marisa
voltou-se para ele. Havia um certo carinho no sorriso que lhe dispensou. Ela se emocionava com pais que pretendiam estender seus papis ao mximo. Provavam que existiam bons pais por a, mesmo que seu pai e Antnio no fossem.
	Com certeza, se me chamar de Marisa. Quando me chama de Sra. Rogers, tenho vontade de olhar por cima do ombro para saber se minha me est atrs de mim.
Entregou o garoto que estava segurando para a me da criana. Assim que ficou livre, Andrea atirou-se aos braos dela. Sem perder o embalo, Marisa apanhou a menina.
Ele ficou impressionado em ver a facilidade com que sua filha aceitava aquela desconhecida. Reforava a deciso que tomara pouco tempo antes.
	Isso significa que no  casada?
Ela riu suavemente, negando com um gesto de cabea. Embora se considerasse uma pessoa calorosa, existiam certos assuntos sobre os quais relutava em falar. E o que acontecera entre ela e Antnio encabeava essa lista.
	Para meu pai, no  declarou Marisa.
Sempre que falava no sargento, vinha a mesma imagem  sua mente. Uma valise aberta. Parecia que tinha passado a infncia inteira a mudar de casa, arrumando e desarrumando malas para correr pelo pas porque seu pai dedicara a vida ao Exrcito.
Andrea parecia entretida em rearranjar o rosto de Marisa. Tomando as mozinhas que lhe esticavam os lbios, a instrutora beijou os dedos irrequietos. Andrea riu. Erguendo os olhos para o pai, Marisa incentivou-o:
	Era isso o que queria me perguntar?
Sabia que no era. No era o tipo de lugar em que se arriscava a levar uma "cantada". E Alec Beckett no dava a impresso de ser do tipo ousado. Mesmo em roupas esporte, ele parecia pronto a iniciar uma reunio de diretoria a qualquer momento. Imaginou o que ele fazia para viver, e se alguma vez perdia a calma.
Alec percebeu que ela no se distraa com os malabarismos da filha, que no momento escalava acidentes anatmicos. Marisa parecia perfeitamente  vontade, e ele admirou-lhe o talento para lidar com crianas.
	Eu... quer dizer, podemos conversar?
	Como assim? Quero dizer, no estamos conversando?
	Eu quis dizer em particular  explicou ele.
O tom era srio. Talvez algo o estivesse incomodando. No seria o primeiro pai a expor um problema. Marisa olhou na direo de Christopher para ver como ele estava se saindo. O aposento estava cheio de pais, cujo nmero parecia aumentar a cada aula. No que se importasse, pois encarava aquilo com certo orgulho profissional.
	Acho que no momento, o melhor que posso fazer  irmos at o canto. A no ser que pretenda esperar at depois da aula.
	No canto est timo.
Queria que Marisa tivesse tempo para pensar sobre o que ele tinha a dizer. Se esperasse at depois da aula talvez ela ficasse cansada demais e rejeitasse automaticamente a proposta. Seguiu-a atravs do aposento, sentindo alguns olhares de mes experientes, como se tivesse a palavra calouro escrita em sua testa. Algumas vezes chegava a sentir-se dessa forma. Mesmo depois de um ano enfrentando as agruras da paternidade.
Marisa apoiou-se contra a parede e aguardou.
A viso da intensidade do azul nos olhos dela fez com que ele perdesse a concentrao e se sentisse pouco  vontade. Apanhou Andrea para ter o que fazer com as mos.
Sempre que fazia suas exposies, procurava uma boa frase de abertura. Sabia o valor de capturar a ateno da audincia desde o incio. Naquele momento, porm, nada lhe ocorria. Fazendo o melhor possvel, foi direto ao assunto:
	Reparei como voc tem jeito com crianas...
Ela sorriu. Aonde aquele homem pretendia chegar?
	O trabalho exige que seja assim  respondeu ela, anotando mentalmente que pelo menos trs mes precisavam de sua ateno.
	Fiquei imaginando se voc seria boa em particular. Ela voltou a cabea para ele, espantada.
	Est me passando uma "cantada"?
Alec, envolto nas prprias dificuldades, demorou um instante para compreender o significado da pergunta.
	Como?
Ela ficara com a impresso de que ele tinha intenes de sair com ela. No era de se espantar, considerando que a primeira pergunta fora sobre casamento. Agora precisava ter o dobro de cuidado.
	No, claro que no. Quer dizer, voc  muito bonita e tudo, mas...  Alec interrompeu-se, espantado com sua prpria incapacidade de falar. Sorriu, sem jeito.  No estou me saindo muito bem, no ?
	Senhor Beckett, desculpe, mas no disponho de muito tempo. Podemos ir direto ao assunto?
Alec sentiu-se descontente. Como poderia um homem que conduzia reunies com centenas de profissionais vacilar quando se tratava de falar com apenas uma mulher?
 que no estava em seu elemento, lembrou a si mesmo. Programas e equipamentos relativos a computadores eram sua rea. Objetos e idias estreis, no assuntos que precisavam de um ambiente emocional. Andrea tentava enfiar o mximo possvel da l no interior da boca. Com um suspiro ele retirou o tecido da filha. Se no falasse logo, iria perder sua chance.
	Minha bab foi embora.
Marisa no conseguiu evitar a resposta.
	O senhor no est um pouco velho para ter uma bab?
Por um instante ele imaginou que ela estava falando srio. O sorriso divertido que curvava graciosamente os cantos dos lbios dela foi que o trouxe de volta. Ela tinha senso de humor.
No ltimo ano quase esquecera como se ria.
	No. Quer dizer, a bab de Andrea foi embora. Ela se encontrava na ponta dos ps, como se assim
projetasse melhor a voz  distncia.
	J estou indo, Sra. Stewart  gritou ela para uma das alunas, aflita.
Em seguida voltou-se e apoiou a mo no brao dele. O momento tornou-se particular no mesmo instante.
	Sei disso. Desculpe, foi uma piada ruim. O que estava dizendo, mesmo?
Os olhos azuis brilhavam tanto que o lembraram do lago l fora, quando o sol incidia sobre a gua calma.
	 que a bab de Andrea foi embora ontem  noite e eu estava pensando se...
Marisa assentiu, finalizando a frase:
	E quer saber se conheo algum para voc contratar?
	Na verdade eu estava pensando em oferecer o emprego a voc. 
Marisa piscou. Ser que tinha perdido alguma frase? Por que ele imaginava que ela precisava de um emprego? Do jeito como estava sua vida no momento, a sugesto parecia surpreendente.
	Para mim?
	, voc seria perfeita  respondeu Alec sem deixar-lhe tempo para pensar.  Todas as crianas se do bem com voc.
Marisa comeou a mover-se na direo da aluna com problemas outra vez. No podia esquecer que tinha obrigaes para com todos os alunos e precisava cumpri-las. No devia ficar ali, falando com um dos pais.
	Bem, agradeo pelo oferecimento, mas como v j tenho um emprego. E no posso deixar de atender meus alunos.
Contudo, Alec no pretendia desistir com tanta facilidade. No depois de ver como Andrea gostava dela. Costumava chorar quando s aproximava de uma bab.
	Esse seu trabalho  em perodo integral?
As aulas significavam apenas meio perodo de emprego. Felizmente podia contar com os cheques de Antnio. Embora dissesse a todos que no podia representar o papel de pai, pelo menos na parte financeira ele ajudava. S precisava dessa penso, de sua bolsa escolar na faculdade e de sua habilidade para viver com pouca coisa mais. Mas no viu motivo para discutir qualquer desses assuntos com aquele homem.
	No, mas meu tempo est ocupado.
	Com Christopher?
Um sorriso amplo precedeu a resposta.
	.
	Mas voc poderia trazer seu filho com voc. Preciso de algum que durma no emprego  argumentou ele.  Mas como  casada, eu...
	No. sou mais casada  esclareceu ela.  Mas no  esse o problema, Sr. Beckett. Freqento a aula trs dias e uma noite por semana.
	No  casada?
	No. Mas...
	Nesse caso poderia morar no emprego.
	Se fosse necessrio, sim, mas...
A expresso de alvio demonstrada por ele denunciou a sorte inesperada.
	Mas isso seria timo. Eu trabalho em casa de dois a trs dias por semana. A gente poderia pensar em algum acerto.
Fazia parte da poltica da Bytes & Pieces, sua firma, a colaborao com os rodzios de horrios no sul da Califrnia. Tudo o que ele precisara era de um terminal ligado ao computador central no escritrio. Agora realizava tarefas em sua prpria casa.
	Poderamos, mas existe um problema maior, senhor Beckett.
	Qual ?
	Est esquecendo que eu disse no.
A base slida que ele j construa em sua cabea sofreu um abalo forte.
	Precisava usar tantas palavras?
	Na verdade no cheguei a ter a chance de usar essas palavras. Tenho um horrio ocupado e no sei se seria possvel sair dele no momento.
Ele tinha a sensao de que Marisa seria boa para sua filha. No pretendia desistir sem luta.
	Quanto ganha aqui?
	 uma pergunta um tanto pessoal, no acha?
	Dinheiro nunca  pessoal.  um assunto pblico. Quanto quer que seja, posso dobrar seu salrio.
O homem no parecia disposto a aceitar uma resposta negativa. Aquilo, a julgar pela aparncia dele e das roupas, era algo que no devia acontecer com freqncia.
	Suponho que esteja acostumado a obter o que deseja.
	Para dizer a verdade, nunca estive to desesperado. Tive quatro babs para Andrea em um ano. Quatro mulheres que escolhi depois de conversar com candidatas suficientes para encher um salo de conferncias. Todas vieram de agncias respeitveis e tinham uma boa lista de referncias, mas as coisas parece que no funcionam bem quando a gente quer.
Ela ficou pensando se as moas no haviam deixado o emprego por causa dele. No conseguia ver a menina como causadora das demisses.
	Por qu?
	No sei, acho que esse tipo de problema ...
	Por que a moa se demitiu, Sr. Beckett?
Ele pensou por um instante, tentando recordar-se.
	Ellen saiu porque apaixonou-se por um sujeito que estava saindo da cidade. Celeste resolveu que no era elegante ser bab. Sue, eu despedi. Ingrid, a primeira, se aposentou. Acho que Andrea pode ter tido alguma relao com isso. No existe dvida sobre o fato de que ela  bastante ativa  afirmou ele, pensando em Christopher.  Mas acho que voc est acostumada a isso.
Andrea era positivamente dcil em comparao com o filho dela.
	Acho que se pode dizer que sim  concordou ela, sorrindo.
	Bem, eu no tenho tempo de passar por esse processo outra vez. Estou no meio do lanamento de um software que desenvolvi, e a idia de sentar e escutar a rotina de um esquadro de mulheres, com a misso de separar os fatos da fico e encontrar uma cheia de amor, pacincia e entusiasmo para lidar com minha filha, francamente no me atrai. Principalmente depois de conhecer algum que seria perfeita para esse trabalho.
Marisa suspirou. Ele estava demonstrando um bocado de confiana nela. E provavelmente tinha desenvolvido fobia de entrevistas.
	Bem, agradeo muito, mas falando em trabalho...
	ela olhou por sobre o ombro para a classe.  Acho que preciso terminar o meu.
	E que tal pensar sobre minha oferta?.
	Achei muito lisonjeira, mas receio ter de recusar 	respondeu ela, andando de costas.  Pode ficar sossegado que eu aviso se souber de algum capaz de
preencher seus requisitos.
	Tirando madre Tereza de Calcut, Mary Poppins e voc, no conheo ningum  disse Alec. Depois voltou-se para a filha, no colo:  Acha que vov agenta voc mais um dia inteiro?
Andrea levantou o rosto e, com uma expresso de esforo, produziu um rudo familiar. Ele olhou ao redor, procurando um lugar onde pudesse trocar as fraldas dela. Junto  parede mais distante, havia uma grande cmoda. Dirigiu-se para l.
	No conte essas coisas que eu disse  sua av. Seno ela desiste.
Apertou o passo ao escutar mais revolues internas.
Roberta Beckett ajeitou os cabelos primorosamente penteados com a mo manicurada. As unhas longas e coloridas moviam-se no ar como borboletas procurando um local para pousar. Atravs de um regime meticuloso que seguia religiosamente, Roberta conseguia parecer vrios anos mais nova do que a idade em sua certido de nascimento, guardada no cofre do banco. Alec sabia que era uma das maiores fontes de orgulho para ela que muitas pessoas no os tomavam por me e filho, mas por irmos.
	No  que eu no goste dela, Alec. Gosto de verdade  afirmou Roberta, dispensando um olhar a Andrea, que balanava para cima e para baixo no carrinho.  Mas  que essa histria de dar comida, trocar fraldas... simplesmente no consigo. No est em mim.
Quem melhor do que ele saberia uma coisa daquelas? Ainda assim, sentia-se encurralado, de outra forma no teria pedido a ela. Sabia que todo o trabalho da casa era feito pela empregada. Tudo o que Roberta fazia era aprovar.
	Sei disso, Roberta, e agradeo o que j fez, mas...
	Ainda no encontrou ningum?
Ele nem ao menos tivera tempo de ligar para a agncia. Deveria ter iniciado as entrevistas em vez de ir para a aula com Andrea, mas quando se inscreveu, no planejara nada sobre babs se despedindo sem aviso.
Fez o inventrio mental para assegurar-se de que trouxera todo o necessrio para que Doroti, a governanta, tomasse conta de Andrea.
	Ellen se despediu ainda no faz vinte e quatro horas.
	Deus criou o mundo em seis dias  argumentou a me.
	Pode ser, mas deixou Ado e Eva por ltimo. Foi a parte mais difcil.
Roberta fez uma careta. Andrea gritou de alegria e em seguida atirou-se de encontro ao colcho e ao coelhinho de pelcia.
	Voc no precisa criar uma bab. Basta contratar uma.
Ele precisava pr-se a caminho. Rex, um dos dois proprietrios da companhia, era seu amigo e sempre demonstrara compreenso. Mas tudo tinha limites.
	Uma coisa  quase to difcil quanto a outra.
	Pois eu nunca tive dificuldade em encontrar uma para voc.
Alec pensou nas mulheres que haviam passado por sua vida, com o intuito de substituir o artigo genuno. S a lembrana bastava para que ele no desejasse a mesma coisa para a filha, porm no tinha escolha no momento. Esperava apenas que ela no tivesse recordaes dessa poca.
Como precisava de ajuda, passou a bola para a me.
	Est bem. Ento voc consegue uma bab para ela, certo?
	Eu? Imaginei que fosse um assunto que voc quisesse resolver pessoalmente. Puxa vida, Alec, pensei que tivesse criado voc mais independente.
	No, Roberta, voc no me criou. Estelle, Elizabeth, Suzanne, Joan e muitas outras mulheres cujos nomes nem lembro me criaram, no voc.
Amava a me, mas no pretendia deixar que ela fizesse chantagem emocional. Roberta assumia o ar distante que sempre aparecia quando ela no conseguia lidar com algum assunto. A testa se franziu.
	O que est querendo dizer?
	Acho que estou um pouco nervoso no momento com toda a presso e estou comeando a ser mal educado.
Roberta sorriu, aceitando o pedido de desculpas.
	E verdade. Mas vou perdoar voc porque sou sua me, mesmo que no parea.
Acompanhou Alec at a porta da frente.
	Posso ficar com ela hoje, mas essa situao no pode continuar para sempre. Quero que encontre uma bab o mais rpido possvel.
	No mais do que eu, Roberta, pode acreditar.
	Amanh  sentenciou ela.
Com um pouco de sorte, o dia seguinte poderia ser um daqueles dias em que ele trabalharia em casa. Esse fato lhe daria oportunidade de conduzir algumas entrevistas com babs.
Esperava com fervor ser a ltima vez em que precisaria passar por aquilo tudo.
	Obrigada, Jane, por cuidar de Christopher. Voc salvou minha vida  disse Marisa, retirando o suter e dobrando-o sobre a cadeira da cozinha. Ela acabara
de chegar a sua casa.
E j no era sem tempo. Voltara mais tarde que o previsto porque seu professor envolvera-se numa discusso acalorada com um dos alunos, aps a aula, sobre a administrao de castigo corporal, e a classe se dividira. Estava mais de meia hora atrasada. Telefonara para Jane, da universidade, a fim de avis-la.
Jane reuniu seus livros, colocando-os na mochila, e sorriu.
	No tem problema. Considere um pagamento de favores. Ainda lembro do tempo em que costumava servir de bab para mim  disse a jovem, levantando-se.  Voc fazia umas coisas engraadas...
O Sargento ficara alguns meses por ali quando ela era adolescente e ela sempre cuidava da menina dos Henderson. A casa deles parecia confortavelmente desorganizada, bem diferente da disciplina de caserna em seu prprio lar.
	No era difcil gostar de voc.
Jane fez um sinal sobre o ombro, indicando o quarto onde o menino dormia.
	Christopher est na cama.
	Dormindo?
Tratava-se de uma pergunta retrica. Se ele estivesse acordado, estariam escutando seus gritos.
	Acho que cansamos um ao outro.
Ela telefonara para o pai, que j estava a caminho. Estaria na porta assim que descessem os degraus, pois moravam perto. Marisa acompanhou-a.
	Antes que eu me esquea. Algum telefonou para voc. Anotei o nmero no caderno ao lado do telefone e grudei na geladeira.
	Obrigada  disse Marisa, entregando o dinheiro a Jane.  E boa noite.
	A mesma hora na quinta-feira?
	Claro.
Marisa acenou para o pai que encostava o carro e trancou a porta atrs .da moa. Caminhou at a geladeira para verificar o recado, e no reconheceu o nmero. O nome, porm, lhe era familiar: Jeremy Allen. Era a pessoa de quem alugava o apartamento. Caminhando at o quarto para verificar Christopher, apanhou o telefone no bolso.
Seu filho continuava adormecido. Permaneceu ali, olhando para ele e deixando que o amor flusse de seu corao. Durante o dia seu filho parecia um feixe de energia pura, mas uma vez adormecido costumava dormir a noite inteira como uma pedra. Era a sua forma de compensar, naturalmente.
Ainda sorria ao discar o nmero e escutar uma voz sonolenta do outro lado.
	Jeremy? Aqui  Marisa  anunciou ela, consultando o relgio e fazendo os clculos, pois ele estava em Nova York.  Desculpe! Acordei voc, no foi?
	Foi, mas tudo bem  respondeu a voz do outro lado.  Tenho novidades.
Marisa no gostou do tom da voz dele, apesar da sonolncia.
	 mesmo? O que ?
	Estou voltando para casa.
Ela sentiu um peso na boca do estmago. O apartamento era uma ddiva de localizao e finanas para ela. Perto da faculdade, perto do emprego e da casa de Jane. Jeremy dissera que ficaria fora por dois anos. S haviam se passado nove meses.
	Quando?
	No final de semana.
	Mas voc disse que...
Ele no era do tipo que pretendia discutir no meio da noite.
	Eu disse que era temporrio  interrompeu Jeremy.
	E verdade, mas voc fez isso de uma forma que dava a entender que ficaria fora pelo menos at o final do prximo ano. No mnimo, foi o que voc disse.
	Era mesmo, s que os fundos para a pea terminaram. Encerramos a temporada hoje.  Ele suspirou.  Eu podia deixar que voc ficasse, mas acho que ia ficar apertado...
De vrias formas, pensou ela. Tudo bem lidar com
Jeremy a cinco mil quilmetros de distncia, mas j sabia o que a convivncia prxima podia fazer com as amizades. Jeremy acreditava que nenhuma mulher deveria morrer sem experimentar seus favores sexuais, pelo menos uma vez.
	Tudo bem. Eu saio at o final da semana.
	Tem certeza?
	Tenho  respondeu ela, relutante.  melhor voc dormir um pouco agora. Vejo voc na sexta-feira.
	Avise se voc mudar de idia  finalizou ele, com voz sonolenta.  Tenho um grande corao.
	Certo. Pode deixar.
Marisa desligou, a testa franzida. Tinha quatro dias para encontrar um lugar para morar, trabalhar e terminar sua tese, estudar para uma prova e organizar as vrias partes de sua vida.
Sentia-se como se tivesse finalmente chegado a um muro enorme. No momento, dava a impresso de estar oscilando, como se fosse cair.
Captulo III
Marisa entrou correndo na sala de aula, chegando em cima da hora. O relgio na parede marcava exatamente cinco e meia.
Conseguira!
Estava vagamente consciente de que Christopher tinha os dedos entrelaados em seus cabelos, verificando a resistncia dos fios. Afastou-lhe a mo, que passou a puxar a gola da camiseta.
Uma rpida olhada pela sala informou que todos pareciam presentes. Chegara em cima da hora. Outra vez. Aquilo precisava parar. At o ms anterior, sempre se considerara organizada.
Como um sargento.
De alguma forma, no ficara diferente do pai, pensou Marisa, erguendo a sobrancelha. Tratava-se de uma idia assustadora. No era parecida com o Sargento, s estava sob presso.
Preocupada em ter de arrumar um novo lar, virou-se na cama a noite inteira. Quando finalmente adormeceu, Christopher acordou, anunciando em altos brados o incio de mais um longo dia. Com trs aulas e uma excurso  biblioteca quando fosse possvel. Apesar da correria, a consulta terminou como um verdadeiro desastre: todos os livros que foi procurar estavam fora.
Ultimamente no parecia haver tempo suficiente para fazer qualquer coisa, exceto apressar-se.
A seo de classificados que ela agarrara naquela manh ao sair de casa no estava mais perto de ser lida agora do que s oito horas, quando deixara o apartamento. Passara o dia em sua bolsa, como lembrete constante de que no tivera tempo para examin-la
Tinha medo de abrir e verificar que no existiam mais apartamentos no bairro onde precisava morar. Com certeza seria mais caro do que sua moradia atuai, que j comprometia o oramento. Embora detestasse a idia, seria obrigada a dividir despesas com uma companheira de quarto.
Com a tese de doutoramento preocupando sua mente a perspectiva de procurar um apartamento e mais algum para dividir o aluguel era desanimadora. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Marisa sentia a tenso crescendo em seu interior e destruindo seu otimismo como a mar constante a bater nas pedras. Comeava a parecer uma das fases mais difceis de sua vida.	
Quando a porta se fechou atrs dela com um estrondo, vrias cabeas se voltaram em sua direo. Marisa sorriu, sem graa por ter deixado a porta es
capar Esticando a mo para colocar a bolsa no cho, deixou cair acidentalmente o jornal dobrado. Sentiu-se mais desajeitada do que nunca.
Suspirou procurando recobrar o controle. Iria atravessar aquela fase, assim como tinha atravessado outras fases difceis em sua vida. Se tivesse dormido bem. pelo menos no se sentiria to irritada
Ainda assim, algumas vezes seria bom lidar com um problema de cada vez. Como terminar sua tese, por exemplo.
Mantendo o filho seguro apoiado aos quadris, Marisa curvou-se para apanhar as pginas espalhadas. Pretendia examinar as ofertas antes de cair como uma boneca vazia.
	Deixe que eu faa isso por voc.
Marisa olhou para cima, considerando a oferta de Beckett. Reprimiu o impulso de dizer que podia lidar com aquilo. No momento, no podia.
	Seria bom, obrigada  disse ela, erguendo-se. Mantendo um olho em Andrea, que estava no cho
tentando comunicar-se com dois outros bebs, Alec agachou-se e reuniu as folhas de jornal espalhadas.
Marisa passou a mo nos cabelos. O ar mido os deixava cacheados e embaraados. Parecidos com sua vida, no momento, pensou ela.
	Obrigada. Hoje parece que eu estou me desconjuntando.
Alec percorreu com os olhos o corpo dela, ressaltado por calas colantes cor-de-rosa e um top branco. Imaginou quanto tempo ele permaneceria daquela forma, dado que o filho j enfiava a barra do tecido na boca.
	Ento acho que tomou um banho de cola, porque todas as suas partes parecem estar exatamente no lugar, na minha modesta opinio.
Ele estava flertando e o efeito no era desagradvel, pensou ela. No meio da aula era algo incuo e Deus sabe o quanto precisava escutar coisas agradveis quando se sentia perdida.
	Obrigada. Precisava disso mais do que apanhar os papis.
Ela possua um belo sorriso, pensou Alec. Alis, tudo nela era bonito. Se ele estivesse  procura de um relacionamento, o que no era o caso, Marisa seria a escolha apropriada.
Contudo, o nico tipo de idia que ocupava sua mente era arranjar uma bab. Rpido. S a idia de ter de enfrentar as entrevistas no dia seguinte o deixava pouco  vontade. Olhou para Marisa, imaginando se ela poderia reconsiderar sua oferta.
No teve chance de saber.
Marisa voltou sua ateno para o resto dos alunos. Se no comeasse, jamais terminariam na hora certa. No acreditava em transferir seus problemas para o resto da classe.
Alec apanhou Andrea do cho e encontrou um lugar vazio.
	Estou vendo que cheguei por ltimo outra vez, Andy  murmurou ele ao ouvido da filha.
Marisa sorriu.
	Bem, pessoal, cheguei em cima da hora e quero dizer que sinto muito. Ultimamente parece que as coisas esto acontecendo depressa demais.
Um murmrio de aprovao- elevou-se pelo grupo. Todos j tinham tido problemas parecidos. Os bebs pareciam ter esse estranho efeito sobre o relgio.
Os rostos familiares em frente a ela exibiam simpatia e conforto, o que ajudava a deixar de lado seus problemas para dar a segurana aos alunos, que desejavam aprender jogos criativos e educativos com seus filhos.
Na maioria estavam ali porque amavam os filhos. Dava a eles um certo sentido de unio. Uma unio especial. Ningum sabia melhor do que ela a importncia do amor dos pais. Ou como crescer sem ele.
	Muito bem, pessoal! Vamos comear.
Alec reparou que Andrea parecia preocupada.
Estava acostumado aos seus sinais. De manh, o olhar que sua filha lhe dirigira enquanto se barbeava quase provocou um corte com o aparelho. Estivera absorto na tarefa de encontrar uma bab ideal para ela, ou pelo menos uma com bastante energia.
No podia deixar de imaginar qual seria o problema de Marisa e se havia alguma forma de ajudarem um ao outro. Se ele fizesse algo por ela, talvez ela concordasse...
Comeava a pensar como um homem desesperado.
	Como um homem pode se sentir desesperado com uma garota como voc em sua vida?
Andrea optou por ignor-lo, entretida que estava em roer o prprio dedo do p. Rindo, Alec dirigiu sua ateno para a tarefa que tinha pela frente. O entusiasmo genuno dela era contagioso. Todos lhe disputavam a ateno. Sentados no cho, a maior parte com os filhos entre as pernas, tentando colocar os pequeninos para realizar o exerccio que ela explicava.
Marisa estava determinada a falar com cada um pelo menos uma vez no decorrer da aula. Parou ao lado de uma me, cujo filho, gritando em protesto, tentava escapar rumo  liberdade.
Parecia engraado, mas ela sabia como podia ser frustrante.
	Experimente fazer assim  disse Marisa, demonstrando na criana os movimentos corretos.  Agora voc.
Hesitante, a jovem me imitou os gestos, sorrindo pouco a pouco quando seu filho demonstrou a alegria de fazer o exerccio.
	Isso mesmo. Divirta-se com ele. E para isso que esto aqui. Para se divertirem com seus filhos.
Outra me chamou a ateno de Marisa.
	Est certo assim?
	Enquanto nem vocs nem os bebs derem um n no corpo, est timo  disse Marisa para todos, enquanto observava a mulher realizando o exerccio.   isso mesmo. Criatividade. Sejam criativos e flexveis. No  tanto a perfeio dos movimentos, e sim o exerccio sadio para seus filhos.
	Quando a gente deve parar?
	At se cansarem da brincadeira, ou no agentarem mais. Os bebs esto cheios de energia e  preciso usar essa energia de uma forma positiva. Deixem que eles se cansem naturalmente, em vez de ficarem imveis na frente da televiso.
	Voc no aprova a televiso?  indagou Alec, surpreso.
Marisa voltou-se em sua direo. No conseguia imagin-lo colocando a filha em frente a um aparelho de televiso. Ele parecia atento s necessidades de Andrea.
	Aprovo sim, mas no como bab permanente. Aquela fora a soluo de sua me e ela aderira de bom grado. Tanto que depois de crescer em sua existncia nmade, existiram momentos em que a televiso parecera a nica amiga que possua. A nica referncia que no se alterava em sua vida. Fora necessrio um bocado de fora de vontade e determinao para quebrar o vcio e parar de esconder-se num mundo de faz-de-conta. Queria certificar-se de no repetir o mesmo erro com seus filhos.
	Muitos pais deixam os filhos em frente  televiso como se fossem plantas. Cinco anos mais tarde ficam surpresos ao descobrir que o filho ou filha transformou-se em viciado na tela e no quer fazer exerccios.
No instante em que Marisa comeou a ajoelhar-se, Andrea passou entre suas pernas. Foi apanhada exatamente antes de colidir com outro beb. A professora abraou a menina para tranquiliz-la e apontou-a na direo do pai. Alec recebeu a filha, admirado com a rapidez da reao da professora. Ele mesmo tinha medo de deixar que Andrea fizesse exploraes por conta prpria. Talvez estivesse sendo cauteloso demais. Desejava que existisse algum para ajud-lo com esses problemas simples.
	No acho que algum desses meninos v se transformar em viciado em televiso. Pelo menos com essa rapidez e energia  comentou ele.
Marisa inclinou a cabea, demonstrando que ouvira o comentrio. Um suspiro escapou de sua boca antes que pudesse evitar, provocando um olhar de curiosidade em Alec.
	Talvez eu at gostasse de sentar e relaxar um pouco no sof. Um que no tenha pilhas de trabalho inacabado em cima.
Ele teria apostado que havia algo de desorganizado naquele momento na vida dela.
	Est falando sobre roupa para passar ou sobre negcios?
	Nenhum dos dois. Estou falando sobre o trabalho da faculdade: pilhas de livros e papis com anotaes.
Tratava-se da tese que precisaria defender, cujo trabalho de pesquisa acumulava-se, inacabado.
	Isso quer dizer que voc d aulas de verdade? Quer dizer, d aulas numa escola?
	No. Freqento as aulas na faculdade. Pretendo tirar meu doutoramento. Em Psicologia Infantil  afirmou ela, olhando na direo do filho.  Quero saber o que produz tanta energia nesses corpinhos.
	Parece o estudo de uma vida inteira.
Ele acreditava jamais ser capaz de descobrir como funcionava a mente de sua filha. Com um ano de idade j tinha dificuldade para prever as reaes dela. Imaginava que fosse ficando mais difcil com a idade.
	Eu poderia falar horas sobre isso.  Ela riu.
	Por que no faz isso enquanto a gente toma uma xcara de caf?  sugeriu ele, com um olhar esperanoso.  Depois da aula, talvez?
Ela ficou tentada. Em seguida cortou sua reao favorvel. No seria uma boa idia. A ltima coisa que desejava era ser vista socialmente com um de seus alunos. Sua vida j estava complicada o suficiente.
	Acho que eu no...
	Um relacionamento estritamente profissional  interrompeu ele, antes que Marisa continuasse.  Tenho algumas perguntas para fazer e voc  uma mulher difcil de segurar por mais de um minuto durante a aula.
	Marisa!  chamou uma aluna.
	Est vendo o que eu quero dizer?
	Sim.
	Sim, o qu? Est vendo o que quero dizer ou aceita tomar uma xcara de caf comigo?
	Os dois  respondeu ela, sem pensar.
Se ficasse tecendo consideraes sobre o que devia ou no fazer, iria recusar na certa. Tinha muitas coisas para fazer. O tempo esgotava-se.
	timo.
Um sorriso feliz espalhou-se pelo rosto de Alec, parecendo exagerado. Ficou ali, at perceber que Andrea tinha escapado e correu atrs dela.
Alec no teria pensado no Joe's como o lugar ideal para tomar uma xcara de caf com uma convidada.
Em primeiro lugar, as xcaras eram de papelo; em segundo, o caf tambm parecia ser. O pequeno bar ficava a duas quadras do prdio onde eram ministradas as aulas, pertencendo a uma cadeia de lanches descartveis, para quem fazer um bom caf ficava no final da lista de prioridades, logo abaixo da limpeza da gordura depositada sobre os ventiladores.
Contudo, quando perguntara a Marisa onde queria ir, ela respondera: Joe's. Por isso estavam ali.
Com os dois bebes seguramente acomodados em suas respectivas cadeiras para carro com os cintos afivelados, entraram no restaurante e acomodaram-se. O interior era decorado como uma grande tela de desenhos animados. Deslizando os bancos com os bebs para o canto da parede no reservado, sentaram-se em frente um ao outro. Alec aguardou um instante para saber se a filha iria acordar, porm isso no aconteceu.
Ergueu-se, apanhando a carteira no bolso e impedindo o gesto dela em direo  bolsa. 
	J que convidei, o mnimo que posso fazer  pagar. Quer s caf?
A xcara de caf vinha em tamanho grande e pequeno, ignorando os mdios. Mesmo o tamanho grande custava apenas um dlar, e ele estava acostumado a gastar mais.
Marisa voltou-se na cadeira e observou o menu fotogrfico no alto. Descobriu-se hipnotizada pela imagem do milk-shake de morango, cheio de espuma.
	Eu no devia, mas... acho que vou querer um milk-shake de morango em vez de caf.
A julgar pela expresso de culpa dela, Marisa devia entregar-se a esses prazeres com demasiada freqncia.
	Claro.
	E uma poro de batatas fritas  acrescentou ela.
Ele riu, enquanto se dirigia ao balco. Tinha imaginado a alimentao de Marisa como saudvel e vegetariana. Ficara contente ao descobrir que estava enganado. Combinava com seu paladar.
	Um apetite saudvel.
	No tive tempo de comer ainda  confessou ela, ajeitando o cobertor ao redor do filho adormecido.  E pode no ser muito saudvel, mas admito que gosto desse tipo de comida, de vez em quando.
	Ento vamos nos entupir de comida descartvel  aplaudiu ele, observando o cardpio.  No quer um hambrguer para acompanhar?
Ela queria. Mas no queria comer sozinha.
	S vai tomar caf? No vai comer nada?
	Claro. Por que no?
O jovem atrs do balco mal parecia ter dezesseis anos e estava ansioso em agradar. O pedido foi feito em pouco tempo. Alec sorriu, lembrando quando tinha essa idade. Quase no parecia -possvel que algum fosse to jovem.
Deixou o troco da nota de dez. Recebeu um sorriso surpreso e agradecido.
Alec trouxe a bandeja para a mesa. O instinto fez com que tivesse a previdncia de pedir uma poro extra de batatas. Tomou seu prprio caf e comeu algumas batatas, observando as duas crianas.
	Ainda dormem  observou, aliviado.
Para ele tratava-se de um milagre, pois Andrea jamais adormecia antes das nove horas.
	Ficam cansados com a aula. Ou pelo menos, essa  a idia geral.
Marisa colocou o canudinho no orifcio da tampa do copo plstico e um pouco de espuma rsea escorreu pela borda. Um dos dedos capturou o lquido, levando-o  boca.
Era embaraoso para um homem sentir-se excitado ao observar uma mulher lamber a espuma na ponta do dedo. Alec no estava acostumado a ficar envergonhado e procurou olhar para outro lado. Pousou os olhos no cardpio.
	Uma grande idia, diga-se de passagem. Eles parecem to sossegados e tranqilos quando dormem  disse ele.  E difcil acreditar que causam tanto dano quando acordados.
Riu ao recordar as queixas de sua me quando fora apanhar Andrea para a aula. Ela tinha arrancado a coleira do cozinho de Roberta e a havia mascado inteira.
	Acho que est relacionado com a sobrevivncia deles  observou Marisa, desembrulhando seu hambrguer.  Deus fez com que parecessem to adorveis
para que a gente os perdoe por tudo o que fizeram durante o dia.
Atacou seu sanduche com evidente prazer, pois era bom morder algo quente e apetitoso. O sabor parecia melhor ainda pelo fato de estar sentada. Ultimamente as cadeiras no estavam relacionadas s refeies rpidas sobre a pia, ou mesmo em movimento.
Alec no conseguia tirar os olhos dela. Parecia que ela estava apreciando uma refeio sofisticada, a julgar pelo prazer demonstrado. Apesar de manter os olhos fechados, Marisa percebeu que estava sendo observada e abriu os seus. Ele deu a impresso de estar intrigado e no desviou os olhos.
	O que foi? Tem molho no meu queixo?
	No. E que eu nunca tinha visto uma pessoa entrar em xtase com um hambrguer.
Marisa riu.
	E que s vezes, quando trabalho demais, esqueo de comer.  bom ser lembrada que a gente est com fome  afirmou ela, dando mais uma mordida no sanduche e mastigando com prazer.  O que voc queria conversar comigo?
	Na segunda-feira, quando contei meu problema... sobre encontrar uma bab  comeou Alec.  Voc disse que me avisaria se encontrasse algum. Ainda estou procurando algum para tomar conta de Andrea enquanto vou para o trabalho e gostaria muito de ter uma pessoa recomendada pessoalmente por voc em vez de entrevistar estranhas. Mesmo porque as referncias que elas trazem podem muito bem ser escritas por pessoas amigas.
	Parece que voc no gosta muito dessas entrevistas  comentou ela.
	Detesto, para dizer a verdade. S fao mesmo pelo bem de Andrea.
Marisa sorriu para a menina adormecida. O cabelo, no mesmo tom loiro que o do pai, lembrava-o em todos os detalhes. Marisa reconheceu sentir uma ponta de inveja infantil. Gostaria muito que seu pai tivesse sido como aquele homem.
	Quem toma conta dela agora, enquanto voc trabalha?
	Roberta.
Ele j dissera que no era casado.
	Namorada?
Ela pensava num tipo loiro e esguio, talvez como a me da menina, quando ele negou com a cabea.
	Minha me.
	Voc chama sua me de Roberta?
	E o nome dela. E ela insistiu nisso. Pediu que eu a chamasse assim muitos anos atrs. No  exatamente o tipo domstico e maternal.
Ele no parecia contente com isso, reparou Marisa.
	Se quer saber a situao, ela me deu vinte e quatro horas para encontrar uma bab para Andrea. Foi um ultimato, entende? Ela disse que a menina quase provocou um ataque de nervos nela e em Silvester.
	Silvester?
	E o antiptico do cachorro dela. Andrea judia dele. Por isso queria saber se voc poderia me indicar algum.
Marisa mordeu o lbio inferior, pensando no problema dele e em sua situao. A seo de anncios classificados aparecia pela abertura de sua bolsa, lembrava-a do prprio problema. J tinha o suficiente para preocupar-se sem ter de ajudar Beckett.
A menos que...
Como podia ter sido to cega? Ser uma bab no era exatamente o que esperava da vida, porm era bem melhor do que ter de conviver com Jeremy, que jamais aceitava um no como resposta; ou ter de sair para a rua, procurando um lugar para morar. E ainda por cima ter de dividir seu apartamento com uma estranha. Tambm teria entrevistas pela frente.
Ainda que no fosse uma soluo permanente, valia a pena tentar. No tinha nada a perder, no momento. Se as coisas no funcionassem, sempre poderia retornar  mesma situao na qual se encontrava.
	Voc disse que a bab deveria morar no emprego?  indagou ela.
	Esse seria o ideal, mas sou flexvel.
	Onde iria morar essa bab, se ela dormisse no emprego?
	Tenho dependncias separadas da casa, uma espcie de apartamento de hspedes. No  muito grande, mas...
Ele continuou falando, contudo Marisa j no escutava.
Um apartamento de hspedes. Isso significava algo mais do que um quarto pequeno. Christopher teria seu prprio quarto, em vez de dormir numa despensa adaptada. A esperana formou-se em seu ntimo, preparando-se para instalar-se.
	Sr. Beckett, acho que posso resolver seu problema  afirmou ela, inclinando-se para a frente.
E o meu, acrescentou mentalmente Marisa.
Captulo IV
A
s coisas no se encaixaram to bem assim. No para a mente dele. Mas seria esperar demais.
	Est tentando dizer que vai aceitar minha oferta?
Enquanto falava, Alec sentiu como se um peso tivesse sido retirado de sua cabea. No precisaria mais passar horas tentando encontrar a pessoa certa para cuidar de sua filha. Teria beijado Marisa, de puro contentamento, se no tivesse se controlado no ltimo instante.
"Engraado como as coisas nunca acontecem da forma como planejamos", pensou ela. Tinha o resto do ano perfeitamente programado e agendado. De repente caiu uma chave de fenda chamada Jeremy nas engrenagens do mecanismo perfeito de seus planos. Mesmo assim, as coisas poderiam ser piores. Beckett parecia ter entrado em sua vida no momento oportuno.
Sorriu quando viu a expresso de incredulidade nos olhos dele. Parecia um homem que tivesse acabado de conferir um bilhete premiado, sem coragem para olhar outra vez.
	E exatamente o que estou dizendo. Depois do alvio, veio o olhar de curiosidade.
	O que a fez mudar de idia?
Marisa terminou seu milk-shake e deu de ombros.
	Certas circunstncias mudaram desde que conversamos pela ltima vez.
	Que tipo de circunstncias?
Apesar de cordial, Marisa no gostava de partilhar detalhes de sua vida particular com as pessoas. Acreditava que esse aspecto da sua personalidade ela adquirira com o Sargento. Pensando bem, entretanto, achou que aquele homem tinha o direito de saber sobre a pessoa que iria tomar conta da filha.
	De repente fiquei sem ter onde morar. Jeremy vai voltar.
	Jeremy?
Seria um ex-marido? Uma amante? Ele no a imaginava como algum que tivesse um amante, mas, por outro lado, algum fascinante como ela teria. Marisa Rogers no parecia o tipo de mulher que ficava disponvel muito tempo.
	No  o que voc est pensando. Jeremy  o amigo de um amigo que foi para Nova York trabalhar numa pea alternativa fora da Broadway.
	Fora da Broadway?  Alec sorriu, imaginando que o termo poderia significar praticamente qualquer lugar do mundo.
	Fora da Broadway. E como Jeremy diz. Provavelmente deve ser em Brooklyn  esclareceu ela.  O fato  que ele no podia continuar pagando o apartamento aqui e ainda dividir um em Nova York. Ento ele me ofereceu pelo mesmo aluguel enquanto ficasse por l. Acontece que eu s o esperava depois do final do ano. Na verdade, ele pretendia ficar dois anos.
Alec sorriu.
	Parece que para ele o sonho durou pouco  continuou ela.  A temporada da pea terminou ontem. Como Jeremy no tem nenhuma outra perspectiva, volta para casa. Deve chegar no final de semana. Isso significa que preciso mudar at l.
	No pode dividir despesas com ele?
Marisa riu. Obviamente ele no conhecia Jeremy.
	Despesas, sim. O espao, no. Ele tem as mos ativas demais.
	E o que isso tem a ver com nosso assunto?  quis saber Alec, sem entender.
	Jeremy no  do tipo com que se pode conviver. No iria parar de tentar alguma coisa comigo. Pode acreditar. Mais do que ningum eu gostaria de conservar esse apartamento. S que no existe a menor possibilidade de dividir o espao com ele.
	A rea do apartamento  boa?
	A rea  boa, mas o principal  que fica perto da faculdade. Praticamente saio pela porta e vou para a classe.
	Bem, acho que no posso oferecer tanta convenincia, mas ainda assim moro perto da faculdade. Moro no condomnio Cedarwood. Minha casa fica de frente para o lago.
Ela passara por Cedarwood varias vezes para chegar  loja de livros. A associao local fazia questo de que as casas permanecessem como novas. O resultado era um belo condomnio, agradvel  vista. Seria um bom lugar para Christopher morar.
Porem alguma coisa no se encaixava.
	No me lembro de ter visto dependncias separadas nessas casas.
	Eu reformei e coloquei mais um quarto acima da garagem, e outro atrs, com uma pequena passarela  explicou ele.  Como o terreno tinha um formato diferente, pude fazer tudo.
Ainda planejava construir um local para Andrea brincar em um ano ou dois, sem contratar ningum.
	E por que voc mandou construir dependncias separadas?  indagou ela.
Como tinham terminado de comer, Alec ergueu-se e esvaziou a bandeja no receptculo apropriado atrs dele.
	Originalmente era para ser outra coisa. Um espao para arte.
Os dois aprontaram-se para sair e apanharam os bebs.
	Que tipo de arte?
	Pintura. O ateli, como minha esposa chamava  disse ele, abrindo a porta para que ela passasse.
	Ela no pinta mais?  quis saber Marisa, percebendo que devia ter ficado quieta.
	Ela no faz mais nada nesse mundo  respondeu ele, olhando para Andrea enquanto a acomodava no assento do carro.
No havia nenhum trao de emoo na voz dele. Estava exausto naquele momento, incapaz de lidar com o assunto de forma desgastante. Continuou como se no falasse sobre si mesmo:
	Minha esposa morreu quando deu  luz Andrea. Teve complicaes no parto. Comeou a ter uma hemorragia e antes que pudessem estancar ela entrou em choque. Depois teve parada cardaca. Me disseram que esses casos so muito raros  concluiu ele, encarando-a.  Acontece tudo muito rpido.
	Alec, me desculpe  disse, tocando-o, num gesto de conforto.  Eu estava apenas curiosa sobre o ateli.
	Tudo bem. voc no sabia. ; De qualquer forma, foi bom ter construdo o ateli. E perfeito para uma baba. Assim, mantemos nossas vidas particulares e voc fica disponvel quando eu precisar de voc... quer dizer... quando Andrea precisar.
Estavam a caminho do prdio onde se achava o carro de Marisa. Ele precisava tomar cuidado com a forma de expressar-se. Havia algo nela que parecia avivar suas emoes. No podia arriscar-se a colocar as coisas a perder. Fazia tempo que no conversava sobre seus sentimentos pessoais com algum. Acreditava que essas coisas ficavam melhor ocultas nas prateleiras mentais, se possvel, trancadas. No fazia bem a ningum soltar esses sentimentos  luz do dia.
No alterava os fatos.
Marisa voltou-se para ele, enquanto o carro comeava a se mover.
	Isso quer dizer que criou Andrea sozinho por um ano?
	Sozinho, no. Como eu disse, tive a ajuda de algumas babs e ocasionalmente de Roberta, quando as coisas apertavam  esclareceu ele, sorrindo ao pensar na me.  Embora seja a governanta dela quem faz o trabalho todo de trocar e alimentar. Roberta s fica por perto e de vez em quando diz coisas na lngua dos bebs para ela. Para Andrea, no para Doroti. No me entenda mal, no acho que minha me seja m, ela parece ter problemas para se relacionar com qualquer pessoa que tenha menos de trinta anos.
	Isso quer dizer que voc logo estar fora da lista? Alec riu. Ela parecia observadora.
	Em alguns meses. Acha que podemos fazer uma troca justa?
	Como assim?
	Posso perguntar sua idade?
	No existe nenhuma lei contra perguntar  afirmou ela, dando de ombros.   *
Pelo tom, Alec percebeu que poderia perguntar, mas isso no significava em absoluto que ela responderia. Marisa despertava sua curiosidade; a maior parte das mulheres no faz segredo da idade antes dos trinta.
	Acho que, nesse caso, no pergunto.
	Tenho vinte e oito anos, mas acho que minha experincia deve falar mais alto do que minha idade, no caso do emprego. Assim pode julgar melhor o tipo de mulher que est contratando.
Ela parecia mais nova.
	J sei o tipo de mulher que estou contratando. Uma capaz, cheia de energia, que evidentemente conhece tudo a respeito de crianas e fez da sobrevivncia uma arte. Alm do mais, Andra adora voc.
	Uau! Acho que se minhas recomendaes fossem essas, eu mesma me contrataria  comentou ela, voltando-se para trs e verificando os bebs. Voltou os olhos para ele.  Posso saber como chegou a essa brilhante concluso?
	Foi fcil. Voc  capaz, porque foi contratada para dar aulas a respeito do assunto, num curso especializado. Cheia de energia porque em vez de ficar se lamentando com o filho nos braos foi buscar um lar para vocs. E  sobrevivente porque est aqui, aproveitando a oportunidade que antes achou dispensvel.
	No dispensvel, apenas no era o melhor naquele momento.
Alec olhou para ela. A luz vinda do pra-brisas manchava a pele uniforme com sombras lquidas. Ficou imaginando que tipo de homem a teria deixado. Devia ser cego e insensvel.
	E agora?
	Agora vou ter de descobrir uma forma de acomodar meus horrios.  uma questo de anotar tudo no papel e descobrir o que pode ser adiado, afastado ou agendado.
	Continue  pediu ele, curioso.
	Muito bem. Preciso levar em conta minhas prioridades  afirmou Marisa, inspirando fundo e visualizando uma pgina em branco.  Para ter um lugar onde morar devo cuidar de sua filha. Para continuar recebendo o dinheiro de minha bolsa de estudos, preciso manter doze crditos por trimestre e tirar mdia B. Alm disso, tenho um contrato para ministrar aquelas aulas sobre cuidados infantis, no "Beb e Eu". Eles sempre me adiantaram dinheiro, de forma que eu pudesse comprar as coisas para Christopher. Foi um inverno duro, esse ltimo.
	No teve penso para seu filho?
	No muito  confessou ela, pensando no orgulho que herdara do Sargento, e que a impedia de pedir mais a Antnio.  Nunca parece ser o suficiente. Toda vez que olho para o outro lado, Christopher j cresceu e perdeu um monte de roupas.
	Eles fazem isso, mesmo  concordou ele, que j no conseguia pensar em Andrea como beb.
	Me diga uma coisa. Estou curiosa. Por que nunca pensou em colocar Andrea numa creche, ou na pr-escola?
Era o que ela fazia para assistir s aulas das quartas-feiras.
	Quero algum que possa dar a Andrea a ateno de que ela precisa. No quero que se perca na multido, como apenas mais uma das crianas. Ela vai ter muito
tempo para se misturar na multido quando crescer. No momento, quero algum que possa se focalizar nela, que esteja l para ela quando eu no puder estar.
Pararam no semforo. Alec no estava com pressa, pois era agradvel conversar com Marisa. Aplacava sua conscincia, dirigida para o trabalho que esperava por ele ao voltar para casa.
	Sinceramente, no posso pensar em ningum melhor do que voc  completou ele.
Marisa no estava acostumada s coisas feitas daquela maneira.
	No vai verificar minhas referncias?
	Por qu? Tem alguma?
Nunca ocorrera a ela pedir cartas nos lugares onde trabalhara.
	Para dizer a verdade, s as da escola onde dou aula.
Ele apreciou a sinceridade, pois vrias candidatas tentaram impression-lo com referncias que nunca coincidiam quando verificadas. Pelo menos Marisa no tentara contemporizar, nem engan-lo.
	Bem, acho que j sei tudo o que precisava saber. Andrea gosta de voc e para mim o mais importante  isso  afirmou ele, em tom decidido.  Como , temos um contrato de trabalho?
	Eu posso fazer alguma pergunta?  indagou ela, que sempre optara pela cautela.
	Quer ver minhas referncias?  sorriu Alec. Marisa j vira e ouvira o suficiente para formar opinio sobre ele.
	No. Mas preciso saber os detalhes de sua agenda, para poder saber o que fazer. Tenho aulas  noite s segundas, teras e uma na quinta. Na quarta-feira tenho duas aulas durante o dia. Alm disso tenho aulas sobre cuidados com bebs, cujo horrio voc j conhece. Posso trazer Andrea para essas aulas. Voc no precisa mais vir se no quiser ou no puder. Posso usar com ela a mesma tcnica que uso com Christopher.
	Ei, pensei que estava comeando a ficar bom nisso - reclamou ele, que no tinha intenes de desistir.
	Ou no?
	Voc  um dos pais mais atentos. Para dizer a verdade, antes de comear a dar aulas l, eu no sabia que os pais podiam ser to atenciosos.
	Seu pai a abandonou quando era pequena? Ela deu a impresso de ficar surpresa com a pergunta.
	No. Mas uma pessoa no precisa sair de casa para estar ausente. Ento, o que acha? Podemos resolver as coisas para satisfazer ambas as partes?
	Eu fico em casa dois dias por semana. Um deles pode ser a quarta-feira. Posso ficar com Christopher para voc enquanto vai  aula.
	Voc no precisa fazer isso. Existe uma tima creche no campus da universidade. Mas durante as noites...
	Muito bem, fico com ele durante as noites.
	Isso iria facilitar as coisas.
Depender de Jane era uma circunstncia ocasional. Algumas vezes a me vinha apanh-la para fazer os deveres de casa, que se acumulavam. Havia vezes em que nenhuma das duas estava disponvel e ela precisava alterar o horrio das aulas. Se Christopher no o fizesse desistir na primeira vez, estaria bem.
	Ento fechamos nosso acordo?  props ele, estendendo a mo.
	Fechamos.
Cumprimentaram-se. Mas havia algo indefinvel naquele aperto de mo. O contato pareceu surpreender a ambos.
	Quando pode mudar?
	Assim que eu reunir minhas coisas. No tenho aula esta noite, portanto posso ter tudo pronto pela manh. Bem cedo.
	Por que no me deixa ajud-la a arrumar as coisas? Quem sabe a gente consegue empacotar tudo hoje mesmo?
Marisa pareceu hesitar.
	No sei... seu carro  pequeno. Vamos ter de fazer vrias viagens.
	Tenho uma caminhonete.
	Voc  sempre obstinado assim?
	No, mas estou desesperado. Tenho uma reunio pela manh e se deixar Andrea com Roberta pela terceira vez seguida, ela provavelmente vai interpretar o dilogo da cena da morte de Hamlet antes de me deixar ir embora.
	Qual dos papis?  quis saber ela, sorrindo.
	Todos. Ela tem uma certa tendncia a ser dramtica  respondeu Alec.  Roberta trabalhou no teatro quando era mais jovem. Diz que nunca saiu do sangue. Pela forma como ela age, acredito piamente.
	Voc deve ter tido uma infncia interessante.
	Talvez essa fosse uma forma de descrever minha infncia. Foi bem diferente. A famlia de Roberta sempre foi distante, e ela se revelou a ovelha negra da famlia, mas como era filha nica, eles a deixaram fazer o que bem entendesse. O problema  que ela jamais soube com exatido o que desejava, com exceo de permanecer eternamente jovem  narrou ele, repetindo a histria que escutara da av inmeras vezes.  Roberta casou com meu pai contra o desejo de todos, o que acho que foi o principal motivo para o casamento. Foi um ato de rebeldia, nada mais. Quando nasci, Roberta j resolvera que no estava mais apaixonada por meu pai. Em seguida ela se inscreveu numa escola de "arte dramtica para iniciantes". Palavras dela, no minhas. Meu pai a deixou. Fiquei com minha primeira bab enquanto ela saiu para conhecer o mundo.
	E foi o incio de uma tradio  completou Marisa, comeando a entender.    .
	Meu Deus, espero que no. Nunca quis que Andrea se sentisse como eu me senti.
	Como voc se sentiu?  quis saber ela, depois de uma pausa.
	Como um par de sapatos que algum precisa manter engraxado para o caso de serem tirados do armrio para alguma ocasio formal, mas que na maior parte do tempo fica fora da vista.
	Puxa! Voc se dava bem com sua me?
Alec pensou por um instante. Jamais conversara com Roberta tempo suficiente para descobrir se se dava bem com ela.
	Eu no a via tanto assim. Ela sempre estava de sada para algum lugar aonde no podia me levar.
Depois me mandou para o colgio interno, assim no precisava ficar contratando babs. Elas iam e vinham com regularidade antes disso.
Marisa imaginou um garotinho solitrio, sem amor e acreditando que era invisvel para os adultos. "De uma certa forma, temos muito em comum", pensou.
	Isso parece terrvel.
No tinha havido necessidade de penetrar to fundo no passado. Apesar disso, havia uma parte dele que se alegrava por ter falado sobre o assunto.
	Parece pior do que era. Consegui crescer e me tornar algo e ela gosta de dizer que teve o seu papel nisso, quando convm.
	Mas ela no quer que a chame de mame. Ele negou com a cabea.
	Isso comeou quando fiquei mais alto do que ela. Eu tinha quase quinze anos e fui passar o Natal em casa quando ela me disse que queria ser chamada de Roberta.
	E quanto a Andrea? Ser que vai poder cham-la de vov?
Alec comeou a rir, imaginando a cena.
	Acho que seriam as ltimas palavras de Andy. Pelo jeito Roberta vai querer continuar a ser chamada de Roberta at o final de seus dias  completou ele. Sacudiu a cabea.  Afinal, como  que comeamos a falar nesse assunto?	,
	Eu fiz uma pergunta e o assunto surgiu.
	No estou acostumado a falar tanto assim. Devem ter sido as batatas fritas.
Seria melhor colocar a culpa nas batatas do que admitir que ela tornava as confidncias algo fcil.
	Ouvi dizer que o FBI costuma usar batatas fritas quando interrogam espies perigosos para arrancar segredos internacionais deles.
Ele ficou srio, depois riu.
	Voc tem uma lngua afiada, sabia?
	, j me disseram.
E tambm uma boca tentadora, mas ele no viu motivos para dizer aquilo em voz alta. Tais sentimentos no possuam lugar algum no relacionamento que iniciavam.
	Bem, pelo menos voc sabe disso. Muito bem, aqui est o plano. Voc me d seu endereo e eu volto com a caminhonete em menos de uma hora.
Marisa rasgou um pedao da seo de classificados e escreveu seu endereo. No precisaria mais daquele jornal, pensou ela, satisfeita.
Captulo V
Com os braos abaixados, Marisa afastava uma caixa que estava em seu caminho com a ponta dos ps. Suspirou e espalhou seus pertences sobre a cama enorme que dominava o ambiente. Segundo lhe contaram, Jeremy passava um bom tempo na cama, recebendo pessoas no quarto, a maior parte mulheres. No parecia importar-se com o fato de que mal havia espao para mover-se no restante do aposento. Arrumar suas coisas era uma atividade parecida com um teste de coordenao fsica.
Entrando no armrio, procurou decidir o que fazer a seguir. A lmpada no soquete balanava, lanando sombras estranhas e assustadoras sobre as roupas e prateleiras. Agora no tinha mais medo, porm passara a infncia com medo do escuro sem contar com a compreenso do pai. Jamais permitira que se acendesse uma luz noturna no quarto.
 E um desperdcio de dinheiro. Ela  minha filha. No precisa ficar com medo do escuro, nem vai. No enquanto depender de mim  dizia ele, em altos brados.
Como se gritar com ela fosse torn-la corajosa.
Sua me efetuara uma dbil tentativa de conversar com o Sargento. Como sempre, no recebera ateno e retrocedera. Tinha receio das represlias verbais. A lngua do Sargento era sua arma mais contundente. Marisa passara longas noites acordada, chorando de medo e tentando enxergar alguma coisa no escuro que a perturbava. Alguma criatura que sairia dali para peg-la.
Isso nunca acontecera.
Provavelmente tambm tinham medo de seu pai, pensou ela. Depois voltou-se para o filho:
	Voc pode dormir com a luz acesa quantas noites quiser, meu bem. Eu dou um jeito de pagar as contas.
Seu objetivo principal na vida era dar a Christopher uma infncia da qual ele se lembrasse com prazer. Ao contrrio dela.
Cabides vazios pendiam do armrio lgubre. Marisa avaliou a pilha de roupa acumulada sobre a cama. No havia muito, porm ela nunca prestara ateno a roupas. Existiam coisas mais importantes na vida. A principal pulava para cima e para baixo no quadrado montado na porta do quarto, onde o menino podia v-la trabalhando. E o mais importante, ela mantinha um olho nele.
Apanhou uma caixa achatada- embaixo da cama e reforou as bordas e emendas com fita adesiva.
	Espero no estar tomando uma atitude da qual ns dois iremos nos arrepender mais tarde  murmurou ela.  Mas ele parece bonzinho e ns precisa mos de um lugar para ficar. Alm do mais... tenho a impresso de que Andrea gostou de voc. Seja simptico com ela, est ouvindo? No v quebrar o corao dela antes da hora.  Marisa suspirou e embeveceu os olhos na contemplao do rosto radiante do filho,
que parecia entender tudo.  Voc vai partir muitos coraes, sabia? As meninas vo ficar o dia inteiro atrs de voc. E to lindo.
Christopher emitiu sua opinio, reforada por saltos e gritos.
	, acho que vai ter de se esconder delas. Ele estava aprendendo rpido a comunicar-se. Bufou, ao sentir o peso da pilha de livros. Beckett movia-se depressa, assim como ela. Mas daquela vez talvez fosse um erro. Talvez ela devesse ter parado o suficiente para pensar um pouco mais sobre o assunto.
	Acho que eu podia ter recusado e conseguido um emprego de perodo integral... mas nesse caso a gente ia se ver muito menos. Alm do mais, estamos to perto, agora, Christopher. Mais dois meses e a mame consegue o doutoramento  disse ela, olhando para o filho, que se entretinha com os dedos dos ps.  Voc no parece muito impressionado.
O menino no desviou o olhar do dedo.
	Voc no pode estar com fome, acabei de dar sua comida. Ser que  outro dente nascendo?
Caminhou at ele e entreabriu os lbios gordos para observar as gengivas, mas o exame durou poucos segundos, pois Christopher fechou a boca com fora.
	Deixe mame ver, meu bem  pediu ela, em tom carinhoso.
Como se entendesse perfeitamente e resolvesse manter a boca fechada, o menino apertou ainda mais os lbios.  Tudo o que est no cho voc pe na boca e agora no quer abrir? Tudo bem. Mesmo porque no deve ser outro dente nascendo.
Cada um dos que apontavam entre as gengivas fora saudado com gritos e choros durante o perodo de crescimento.
A campainha tocou.
	Nossa, ele deve mesmo morar perto  comentou ela alerta, limpando as mos no jeans.
Christopher no tinha nada a dizer sobre o assunto. Voltava a saborear os pequenos artelhos.
Caminhando at a porta, abriu-a sem demora. Alec estava  soleira, trajando roupas confortveis. Talvez fosse o traje adequado para auxiliar em mudanas. Ela sorriu.
	Oi.
Marisa estava com uma mancha escura na ponta do nariz. Alec resistiu  inesperada vontade de limpar o local com seu dedo. Seria um gesto pessoal demais.
	Voc sempre devia olhar pelo visor antes de abrir a porta.
	Isso seria difcil... sem o visor  respondeu ela, fechando a porta e apontando a superfcie lisa.
	Uma mulher que mora sozinha sempre deve ser cautelosa. Se no tem um visor, como sabe quem est tocando?
	E fcil. Abro a porta.
	Para qualquer um?  indagou ele, enfiando as mos nos bolsos.
	Acho que sim. Bedford  uma cidade pequena e pacata.
Esse fora um dos motivos que a haviam trazido logo depois do divrcio. Sentia-se calma e segura ali.
	Mesmo cidades pequenas e pacatas possuem seus psicopatas.
Ela sabia que o estava aborrecendo, pois podia criar uma dvida em relao  segurana da filha.
	E voc? Sua porta tem visor?
	Bem... sim  respondeu ele, sem saber em que ponto se encaixaria aquele dado.
	Ento no teremos problema nenhum. Basta que eu sempre use o visor  declarou ela, encerrando o assunto. Olhou ao redor, procurando a filha dele.  Deixou Andrea dormindo em casa?
	No, eu a deixei com Roberta. Seria difcil trabalhar direito com mais uma.
	Engraado, eu pensei que...  comeou Marisa, calando-se em seguida.
Alec percebeu o que ela iria dizer. Roberta ficara surpresa com sua presena l. Rapidamente ele explicou o motivo.
	Eu disse a ela que tinha contratado uma bab para Andrea e que precisava ajudar na mudana. Ela ficou to contente que s percebeu que Andrea iria ficar na hora de se despedir. Alm do mais, Doroti estava l.
	Doroti?  parente de algum?
Ele abaixou-se ao lado do quadrado. Balanando-se com as mos agarradas  grade, Christopher parecia a ponto de desmontar toda a estrutura.
	Ol, campeo.  a governanta de Roberta. Doroti adora crianas. Em pequenas doses, claro.
Alec passou a mo nos cabelos sedosos de Christopher, imaginando se os dela seriam to suaves ao toque. Reprimiu o rumo de seus pensamentos, dizendo a si mesmo que estava ali para ajudar.
	E o que acontece com a maioria das pessoas. Ele a encarou, lembrando o brilho de alegria nos olhos dela quando lidava com as crianas na aula. 
	Mas voc no  observou Alec.
	No. Fui a mais velha em minha casa. Tenho cinco irmos e irms, e todos nasceram gritando.
	Eu teria pensado que cuidar deles a tivesse enjoado de cuidar de bebs.
Ela sorriu.
	Voc teria enjoado, no teria? Pois em mim teve exatamente o efeito oposto. O fato de ser responsvel por elas me deu um sentido de estabilidade, de lar,
mesmo viajando sempre. Voc no consegue muito dessas coisas quando  filho de militar.
Estava falando demais, pensou. Enfiou as mos nos bolsos e encarou-o.
	Como ? Trouxe os msculos?
Marisa tinha uma forma desconcertante de pular de um assunto para outro.
	Como?
Ela indicou as duas caixas que acabara de encher.  Algumas dessas caixas de livros so bem pesadas. E como deve ter notado, moro no segundo andar.
	Realmente eu notei esse detalhe  disse ele, olhando ao redor.
No havia muito em termos de moblia, porm o aposento no estava vazio de forma alguma. Havia todo o tipo de objetos espalhados, a maioria constituda por brinquedos e equipamento infantil. Seria de se pensar que a principal funo na vida dela era tornar a vida do filho mais agradvel.
Um sof longo e atulhado de caixas quase o fez suspirar. Voltou-se para Marisa. Com um gesto amplo, indicou as coisas.
	Quanto disso vamos levar escada abaixo?
	S as coisas pequenas, no se preocupe. A moblia  toda de Jeremy.
	Voc leva pouca coisa  comentou ele, feliz com a notcia.
	Voc tambm aprenderia a viajar com pouca coisa se o seu pai fosse militar. A gente aprende a no se ligar em nada mais do que consiga carregar no corpo.
	E quanto s coisas de Christopher?  indagou ele, sorrindo.
	Bem, toda regra tem excees.
	Puxa, voc tem resposta para tudo, menina  comentou, divertido com o jeito dela.
	Quase...
	Bem, o que vamos pegar primeiro?
	No faz diferena. Que tal os livros?  Marisa sugeriu, caminhando para o quarto.
Via de regra ela detestava mudar. Trazia um bocado de lembranas dolorosas. Daquela vez, porm, as memrias pareciam apagadas, talvez ofuscadas pelo brilho das novas possibilidades. Enquanto ele passava a mo na cabea de Christopher, teve uma sensao de calor e segurana, quase familiar.
	Ainda bem que no cheguei a jogar fora as caixas. Agachando-se, Alec passou os braos ao redor da
base da caixa cheia.
	Ainda bem  bufou ele.
	Tem certeza que no precisa de ajuda com isso?  Marisa ofereceu.  Sou mais forte do que pareo.
Disso ele no duvidava, depois de ver a energia que ela despendia durante as aulas.
	Se tentar ajudar, o mais provvel  que a gente role a escada junto com a caixa.
	Est bem. Mas tenha cuidado, sim?
Marisa apressou-se e foi abrir a porta para ele. Alec apoiou boa parte do peso nos quadris, o que lhe permitiu examinar o contedo durante o percurso. Os livros estavam arrumados, as lombadas voltadas na mesma direo.
	Leu todos?
	Cada um deles  respondeu ela, em tom de orgulho.
	Uma leitura rida.
Ao lado dele, Marisa no conseguiu resistir a passar os dedos pelos livros.
	At que no. Alis a maioria deles  fascinante. Alguns, naturalmente, servem mais para apoiar mveis, embora sejam leitura obrigatria. No gosto de jogar livros fora. Parece um desperdcio.
O perfume dela comeava a infiltrar-se pelas narinas de Alec, que ainda no tinha reparado. Forou a mente de volta ao assunto. Todos os livros dela eram relativos a psicologia.
	Voc nunca l sobre outro assunto?
	Leio qualquer coisa em que consiga pr as mos. No posso comprar tudo, s isso. S que limito minhas aquisies ao que irei usar profissionalmente. Uso a biblioteca pblica, que geralmente gosta que os livros sejam devolvidos.
O som da chuva tamborilando no telhado chegou at eles. Ela olhou para fora e percebeu que a garoa anterior havia se transformado em tempestade. Alec passou por ela, que segurou-lhe o brao.
	Espere.
	S posso carregar um de cada vez.
Ela entrou e voltou com um guarda-chuva na mo. Avanou at o exterior e pressionou um boto na base. Um cogumelo azul abriu-se sobre os dois.
	O mnimo que preciso fazer  manter voc seco.
	Um pouco de chuva no faz mal para ningum  respondeu ele, avanando pela escada exposta ao mau tempo.
	Foi o que disse o sogro de No um pouco antes do Dilvio.
	Sogro de No? Eu nem sabia que ele tinha um sogro.
	Isso foi antes da chuva. Por isso voc no ouviu falar dele. Ele morreu afogado.
Enquanto Alec sorria interiormente, divertido com o inesperado senso de humor dela, os corpos de ambos se aproximaram na escada estreita, sob o guarda-chuva. Marisa tornou-se consciente da proximidade do corpo dele a cada degrau.
Ela olhou para baixo, na direo da calada.
	 aquela sua caminhonete?  indagou ela, apontando um grande veculo verde-garrafa estacionado quase em frente, com a traseira para a calada.
	Isso.
Os dedos comeavam a escorregar. Alec esperava que chegassem logo, antes que perdesse o apoio e derrubasse os preciosos livros degraus afora. Passando  frente assim que saram da escada, Marisa abriu uma das portas exatamente a tempo para que ele desabasse sua carga no interior.
	Quantas dessa ainda temos?
	Caixas de livros? S mais uma. Preciso arrumar minhas roupas, mas ainda temos de desmontar a cmoda de Christopher, o bero, a cadeira, juntar os brinquedos e as roupas...
	J entendi  interrompeu ele.  No tem televiso? Nem sistema de som?
	No tenho dinheiro para isso.
O fato de no possuir objetos no parecia incomod-la de forma alguma. Embora gostasse de falar e pensar em estabilidade, Marisa mantinha seu esprito livre.
Foi apanhado de surpresa quando ela encaixou o brao no dele.
	No quero deixar Christopher sozinho mais tempo do que o necessrio  explicou ela, conduzindo-o para o interior.
Alec permaneceu atrs, acreditando ser menos arriscado do que caminhar ao lado dela escada acima, to perto de seu corpo.
Grande erro.
A viso traseira foi mais perturbadora do que o contato lateral. No se podia duvidar que ela estava em grande forma. Seria tarefa fcil acompanhar o ritmo de Andrea.
Assim que a porta foi aberta, escutaram um rudo no interior. Ela correu a tempo de levantar Christopher, cado do lado de fora do quadrado.
	Ele no estava do lado de dentro? Marisa riu, aliviada por ter chegado a tempo.
	Estava  respondeu ela, beijando o filho.  Acho que vamos ter de chamar voc de fugitivo de agora em diante. Na noite passada eu acordei e descobri que ele tinha fugido do bero. E parecia todo orgulhoso. No foi, Christopher?
Alec olhou para o menino, pensando como devia ser bom estar cercado de amor daquela forma. Teria ficado contente com um dcimo do amor que parecia envolver Christopher.
	Por que voc no segura nosso pequeno escapista enquanto eu apanho a outra caixa e levo para o carro?  sugeriu ele, caminhando at o quarto.	Mas ainda est chovendo  protestou ela. Erguendo a caixa nos braos, ele saiu do quarto. A segunda caixa parecia mais pesada do que a primeira. Foi preciso um certo esforo para no fazer careta.
	Prometo no me afogar at colocar os livros em segurana, dentro do carro.
	Eu no estava preocupada com os livros. Ele apoiou por um instante a caixa na parede.
	No precisa se preocupar comigo, tambm.
	Desculpe,  uma mania que eu tenho. Fico sempre me preocupando com as pessoas.
	Com as pessoas em geral?
	.
	Bem, ento acho que est bem. Se no  nada pessoal...
	E se fosse?  quis saber ela, inclinando a cabea para encar-lo.
	Nesse caso no seria uma boa coisa  comentou Alec.
	Registrado  disse ela, percebendo que o filho tentava escapar outra vez.  E o senhor,  melhor ficar a dentro!
	E se eu dissesse a mesma coisa para voc? Ela o ignorou, aproximando-se da porta com o guarda-chuva em punho.
	Voc ainda no est me pagando, portanto no preciso obedecer.
Alguma coisa disse a ele que o fato de estar pagando no estava relacionado com o assunto. Imaginou se contratar aquela mulher e coloc-la em sua vida seria uma boa idia, afinal.
Mas j estava comprometido com ela e no tinha outra alternativa no momento. S esperava, sentindo mais uma vez o perfume dela de perto, que no se arrependesse mais tarde.
Captulo VI
O aroma o despertou, insinuando-se pouco a pouco no sonho, como um ladro que roubasse o sono, despertando o corpo antes da mente.
A princpio foi o perfume de Marisa. O mesmo que percebera no carro, durante a noite anterior. Era uma fragrncia para fazer um homem sonhar com um regato gramado e uma mulher ao lado.
Aos poucos o aroma diminuiu, para ser substitudo por outro mais forte, que o retirou completamente do sono, trazendo as necessidades do corpo.
Devia ser algum tipo de alucinao. No haveria outra palavra para descrever aquilo. Por que estaria sentindo o aroma forte de caf? Ou ento seus sonhos haviam atingido novos parmetros em matria de realidade virtual.
De qualquer forma, estava acordado. Completamente. Entreabriu os olhos e consultou seu relgio de cabeceira. Faltavam vinte minutos para tocar seu despertador. Mesmo assim, resolveu levantar.
Esfregou o rosto e sentou-se na cama. Ao realizar esse movimento, sentiu uma dor forte na base das costas. Era o resultado por querer fazer coisas demais na noite anterior. Deveria ter chamado algum para ajud-lo. Porm acreditara, de forma machista, que podia fazer tudo sozinho, a despeito do bom senso e da chuva.
Talvez estivesse apenas se mostrando. Comportando-se como um adolescente em vez de um homem responsvel, na casa dos trinta anos.
Fosse qual fosse o caso, o fato  que conseguiram trazer todas as coisas dela do apartamento. Ele chegara a descer a cmoda de Christopher sem desmont-la, colocando-a na traseira da caminhonete com a ajuda de Marisa. Ao chegar, adiaram para o dia seguinte a transferncia definitiva dos mveis, resolvendo deixar tudo como estava no interior da garagem. Marisa dormira no quarto de hspedes. Retirara apenas o que seria necessrio para passar a noite com Christopher na cama de casal. Assegurara a Alec que no havia necessidade de trazer o bero para cima antes do final da chuva.
Aliviado, ele a deixou arrumando as coisas e apanhara o carro, dirigindo at a casa de Roberta para apanhar a filha. Com o que lhe restara de energia, colocou Andrea na cama. Depois, dormira instantaneamente. Seus ltimos pensamentos foram sobre Marisa, imaginando o que ela achara do novo lar.
Percebeu vagamente que usara a palavra lar em vez de casa.
Por estranho que parecesse, a filha o deixara dormir sem nenhuma perturbao. Parecia to cheia de energia quando a apanhara na casa da av, que ficou com medo que no dormisse direito  noite. Como se percebesse que o pai no estava em condies de lidar com mais nada, Andrea resolvera adormecer to rpido quanto ele.
Fora uma noite de milagres, pensou, erguendo o corpo.
Poderia jurar que o cheiro de caf o seguia como um fantasma, mas devia ser apenas uma vontade muito forte. Seria capaz de matar algum para tomar uma xcara de caf fresco.
Gostaria tambm de livrar-se das lembranas gerais do sonho, que apesar de indistintas teimavam em permanecer. Sonhara com uma mulher, cujo rosto no podia distinguir e cuja gargalhada parecia ecoar em sua mente, deixando-o intranqilo. A princpio imaginara que fosse outro sonho com Cristina. Sonhava com ela quase todas as noites logo depois que ela se fora. Com o passar do tempo, os sonhos haviam diminudo at cessar completamente.
Porm a mulher do sonho no fora a ex-esposa. Era outra pessoa. Provavelmente algum que ele vira num comercial na televiso. No seria nada importante, que valesse a pena esclarecer. No chuveiro, as impresses foram lavadas pelo jato de gua quente.
Em menos de quinze minutos tinha tomado banho e feito a barba. Mais cinco para vestir-se e sair do quarto, reparando que Andrea continuava quieta em seu quarto.
A filha estaria doente? Que maneira de receber a nova bab, pensou ele, caminhando em direo ao quarto dela, j pensando em cancelar a reunio daquela manh. Se Andrea estivesse doente, iria precisar de sua presena em casa.
O problema  que no podia cancelar. Vinham pessoas do pas inteiro para assistir  apresentao do novo software, e ele era o principal responsvel pela mostra aos clientes. Estava  beira de uma das semanas mais agitadas de sua carreira e talvez com a filha doente. Graas a Deus havia encontrado Marisa a tempo.
Ajeitando o n da gravata, entrou no quarto de Andrea. Talvez estivesse apenas refletindo a forma de ser da me, pensando logo no pior. Ela podia simplesmente ter dormido at mais tarde.
	Hora de acordar, Andy...
Interrompeu-se ao verificar que o bero estava vazio. Automaticamente pensou em algum desastre. Lembrou de uma histria que lera sobre um homem que entrara numa casa para raptar uma das crianas embaixo do nariz de todos. E se algum tivesse entrado em sua casa durante a noite para fazer isso?
Descendo as escadas com passo rpido, estava quase na porta, a ponto de chamar Marisa, quando suas narinas registraram o cheiro de comida.
Bacon. Caf fresco. Torradas. Algum estava cozinhando. Duvidava muito que um seqestrador se desse ao trabalho de preparar comida.
Aliviado e incrdulo, Alec procurou o caminho da cozinha, seguindo o aroma. Encontrou Marisa s voltas com trs frigideiras no fogo ao mesmo tempo. As duas crianas estavam acordadas, vestidas e sentadas em cadeiras altas, estrategicamente separadas para que uma no alcanasse a outra.
Por um instante ,-tudo o que Alec fez foi ficar imvel  porta, observando. Sentiu-se grato e um pouco sem jeito. S ento se deu conta do estresse que o havia acometido nos ltimos meses.
Erguendo uma frigideira do fogo, Marisa voltou-se para a porta, deparando com ele a observ-la. Com movimentos prticos, serviu dois pratos com o contedo das frigideiras, colocando-as na pia.
	Bom dia  cumprimentou ela, sorrindo.
Alec respondeu como se estivesse entrando no sonho de outra pessoa.
	Bom dia. O que esta fazendo?
Ela apanhou os talheres, enquanto as crianas brincavam com os pratos quase vazios.
	Meu trabalho. Esqueceu? Voc me contratou ontem  noite  lembrou ela, colocando um copo de suco de laranja em frente ao prato dele.
Ela se movia pela cozinha com a familiaridade de quem tivesse morado sempre ali. Nenhuma das outras babs que contratara tivera aquela reao. No tinha certeza se ele mesmo podia adaptar-se com facilidade.
	Foi mesmo. Para tomar conta de Andrea, no para cozinhar.
	Pois ela est ali. E eu estou tomando conta dela, no estou?
	Que cheiro maravilhoso  esse, posso saber?  indagou ele, com a boca cheia de gua.
Ela sorriu. No havia nada mais agradvel do que ocupar-se na cozinha de manh. Dava-lhe um sentido de estar no controle das coisas e isso a acalmava.
	O caf da manh.
Alec baixou os olhos para o prato  sua frente. Geralmente comia uma torrada fora do ponto como desjejum. Aquilo parecia um banquete.
	Isso no faz parte do seu trabalho.
	No, mas eu esperava comer. Como voc estava dormindo e eu no queria incomodar, apanhei Andrea no bero, depois a trouxe aqui, para tomar caf com Christopher.
Ele observou as crianas, enquanto ela retirava os pratos vazios, dando uma torrada para o filho distrair-se.
	Eles j comeram?
	A maior parte. Um pouco serviu para decorar a roupa. Resolvi tomar caf, e j que estava fazendo para mim, aproveitei e fiz para voc.
	No era preciso  protestou ele. querendo dizer que a cozinha no fazia parte das obrigaes dela.
	No tive nenhum problema. Encontrei tudo na geladeira  respondeu Marisa, ajeitando o pano de pratos que levava sobre o ombro.  Voc gosta de comer peia manha, no?
Alex sentou-se como se seus joelhos tivessem perdido a habilidade de sustent-lo. O cheiro parecia atra-lo como um poderoso m.
	Gosto. Mas eu tinha desistido. Nunca fui capaz de cozinhar e cuidar de Andrea ao mesmo tempo, de manh.
	timo. Agora no precisa mais se preocupar com isso. Adoro cozinhar e voc tem uma tima cozinha. Muito prtica e espaosa.
Como se demonstrasse o que dizia, Marisa virou-se. Dava a impresso de ser a estrela de um musical, capaz de irromper em canto a qualquer instante. Em vez disso ela voltou segurando o bule e serviu uma xcara de caf.
No havia dvida sobre a qualidade do caf escuro e fumegante quando ele o provou. Sentiu o efeito da cafena instantaneamente. Tomou quase tudo de uma vez.
	Onde aprendeu a fazer um caf gostoso assim?
	No dia em que eu nasci, uma das trs fadas ao lado do meu bero jogou um encantamento em mim. Ela prometeu que eu seria capaz de fazer um caf to gostoso que iria deixar os homens aos meus ps . esclareceu ela, sorrindo.
	Deixe eu adivinhar... Bela Adormecida. No  difcil de acreditar. Acho que  o melhor caf que j tomei.
	Acho?
	Est bem,  o melhor caf que j tomei.
	Nesse caso, tome um pouco mais. Na verdade aprendi o segredo de fazer um bom caf na Turquia.
	E o que  esse gostinho diferente no fundo?
	Se eu contasse no seria mais um segredo, certo?
	Na Turquia, ?
Ela assentiu. Andrea largou sua colher, que bateu no assoalho e foi parar embaixo da mesa. Marisa curvou-se para apanh-la.
	Fazia parte do trabalho do meu pai viajar pelo mundo.
Talvez fosse por isso que ela possua essa capacidade de adaptar-se ao ambiente com tanta rapidez e naturalidade. Imaginou se Marisa teria gostado de viajar de um lado para outro durante a infncia, de acordo com a nomeao do pai.
	Deve ter sido difcil para voc, mudar de um lugar para outro.
	Foi mesmo  admitiu, limpando e devolvendo a colher para Andrea.  Mas acabei me acostumando. Ou era isso ou ficava maluca. Eu tinha meus irmos e irms para cuidar, portanto no sobrava muito tempo para perceber o quanto eu era solitria. Foi mais difcil para minha me.
	Ela no tinha os mesmos irmos e irms para cuidar? E voc?
Seria uma histria longa e arrastada, ainda que ela quisesse compartilh-la. Mas costumava proteger os que amava, ainda que soubessem estarem errados.
	Ela tinha muito em comum com a sua me. No acho que tenha nascido para isso. Foi apenas uma coisa que aconteceu na vida dela  narrou Marisa, suspirando com a lembrana. Fez uma pausa, como se fosse doloroso prosseguir.  Na verdade...
eu aconteci. Meu pai fez a coisa mais "honrada" a ser feita e casou com ela. No acredito que nenhum dos dois jamais tivesse perdoado o outro pelo meu
nascimento.
Alec abriu a boca para dizer alguma coisa, porm ela no parecia disposta a escutar e mudou de assunto.
	Ento? Que tal est a comida?
	Excelente  respondeu ele, respeitando o desejo de privacidade dela. Mordeu a rabanada.  Tudo est uma delcia. Se voc no fosse a bab de Andrea eu iria suplicar para que aceitasse ser a cozinheira.
	Voc tem uma?
Ele no mencionara mais ningum vivendo na casa ou vindo durante o dia para trabalhar. Por outro lado ela tambm no perguntara.
	No.  Alec riu.
Ele sabia se virar na cozinha, pelo menos o suficiente para tomar conta das prprias necessidades e de Andrea. A parte dela era simplesmente esquentar potes de comida pronta.
	Pois agora tem. Enquanto durar nosso contrato de trabalho  afirmou ela, decidida.
Ele a encarou por alguns instantes.
	Est querendo me dizer que pretende ser bab, me, cozinhar, dar aulas, estudar e cozinhar?
	Sim, senhor. E durante a tarde pretendo entortar barras de ao enquanto fao malabarismos com garrafas de leite.
	Est a uma cena que eu gostaria muito de ver.
	Eu aviso quando marcar outra apresentao. A propsito, acho que consegui fazer um horrio para ns. Est fixado na geladeira  ela avisou, levantando-se e comeando a lavar a loua.
"Para ns", ela dissera. Ns.
Por que o som daquela palavra parecia to agradvel a ele? No deveria ser assim. Eram praticamente estranhos e alm do mais ele j sabia o que acontecia a seguir. Baixava a guarda e exatamente nesse instante algo o atingiria bem entre os olhos.
Como a morte de Cristina.
Aprendera da forma mais difcil a no se acomodar frente a nenhuma situao. Caminhou at a geladeira e examinou o horrio. Tratava-se de um resumo de todas as horas e diferentes atividades do dia, incluindo as necessidades de Andrea.
	Voc j fez tudo isso hoje de manh?
	Na noite passada  corrigiu ela.  Eu no conseguia dormir, portanto resolvi fazer algo til e necessrio.
	Certo. Por que no aproveita nas horas de folga e me constri um carro?
	Esporte ou seda?
Ele voltou a servir-se de uma dose de caf, sabendo que se no se controlasse poderia terminar com o bule todo.
	Voc nunca ficou parada por inrcia, sem reagir?
	Para qu? Sempre existe tanta coisa para fazer. De alguma forma me parece um desperdcio ficar sentada e vegetar.
	Pois eu acredito que a palavra certa  descansar 	afirmou ele.
	timo. Ento voc descansa, eu fao  disse Marisa, sorrindo.  Afinal,  para isso que vai me pagar.
Algo no olhar dela lhe chamou-a ateno.
	O que foi?
	Nada...
Seria melhor que ele no soubesse que ela o observara enquanto dormia.
	Se vai trabalhar para mim, seria bom saber que prezo muito a honestidade.
	Est bem, voc  quem pediu  anunciou ela.
 Voc dorme bonitinho.
	O qu? Quando...
	Eu errei de quarto  confessou Marisa.  Quando vi, tinha entrado no seu. Sa imediatamente, claro.
Ento no fora um sonho. Havia mesmo uma mulher em seu quarto. Agora, pensando sobre a imagem, percebia que se parecia muito com Marisa. Existira um motivo para isso. Era Marisa.
Sentiu-se culpado por ter tido um sonho ertico com outra mulher que no fosse a esposa. Agora sabia que no tivera culpa. Ela estivera no quarto e o perfume fizera o resto com sua imaginao. Estava inocente.
Ou pelo menos, to inocente quanto um homem podia sentir-se perto de uma mulher como Marisa. Ela tinha uma tendncia para despertar certos sentimentos adormecidos em um homem. Que ficavam melhor adormecidos, na opinio de Alec.
	Acho que eu devia pedir desculpas por entrar daquele jeito. No tinha a menor inteno...
	 por isso que est com esse sorriso nos lbios?
	No.  que voc me lembrou Willie. O mesmo jeito de dormir.
	Quem  Willie?  quis saber Alec, desconfiado.
	Meu irmo mais novo. Os cabelos dele sempre caam nos olhos, assim como os seus, enquanto dorme. Como os de um co pastor ingls. Aquele simptico. Sabe qual ?
	Sei...  murmurou ele, sentindo o carinho que ela dedicava ao irmo.
Marisa sentia saudades deles, de todos os irmos e irms. Agora estariam espalhados ao redor do pas, cada um num estado diferente. Um a um todos escaparam da famlia, como lgrimas ao vento. Trocar cartas com eles no era a mesma coisa que v-los unidos.
Sacudiu a cabea para espantar as saudades. Mediu-o de alto a baixo.
	Tenho de admitir que parece formidvel quando est todo vestido.
	Espero que sim  respondeu Alec, verificando a gravata, num gesto automtico.  Preciso fazer uma apresentao para uma platia razovel, hoje. No gostaria que pensassem em mim como um simptico "co pastor ingls".
	No precisa se preocupar.  Ela sorriu, atendendo a Christopher, que comeava a fazer baguna em sua cadeira.  Afinal, qual  mesmo seu trabalho?
	Fao vrias coisas, mas acho que posso resumir dizendo que desenvolvo programas. S que passo metade do tempo dedicado a coloc-los no mercado. Como hoje.
Poucas pessoas sabiam de seu envolvimento na criao dos programas, mas ningum melhor do que os responsveis para apresentar o produto aos vrios compradores.
	No so duas atividades que exigem tempo integral?
Enquanto falava ela apanhou no ar a tigela de Andrea, que caa em direo ao assoalho.
	Bela defesa.  Ele aplaudiu.  Voc tem razo. Seriam. Quer dizer, s vezes so. Acho que isso nos d alguma coisa em comum. -
	Acho que sim  concordou ela, encarando-o com uma sensao clida.
	Bem,  melhor ir andando. O trnsito deve estar pssimo.
O percurso no era extenso, mas ele no queria acrescentar nenhum fator de risco  reunio.
	Onde posso entrar em contato com voc?
	Aqui est o nmero da firma, mas como vou fazer essa apresentao provavelmente no poder falar comigo. Se for uma emergncia, pea que me mandem recado pelo pager.
Marisa colocou o carto no bolso.
	Pode deixar.
Ele apertou o nariz da filha e foi recompensado com uma gargalhada. Encaminhou-se para a porta e ficou surpreso ao perceber que ela o acompanhava.
	D duro neles!  desejou Marisa.
Alec parou com a maleta no ar. H muito que no saa de casa com a bno de uma mulher Controlou-se para no ficar emocionado.
	Vou fazer o melhor possvel  prometeu.
	Isso  o mximo que todos ns podemos fazer. Tem alguma idia da hora que volta para casa?
Geralmente ele sabia, mas com o nmero de reunies na agenda daquele dia seria impossvel prever.
	No. Voc tem aula hoje  noite, no?
Ela assentiu e extraiu do bolso um pedao de papel amarelo.
	Fiz uma cpia do nosso horrio para voc. No se preocupe, se for chegar tarde hoje  s telefonar e arranjo algum para ficar no meu lugar.
No primeiro dia j havia problemas de horrio, pensou ela.
	Na aula ou com Andrea?  quis saber ele.
	Conheo uma tima bab. Teve muita prtica tomando conta dos irmos.
	Voc?	
	Como adivinhou?
	Pode ficar sossegada. Volto a tempo de voc ir para a aula.
Afinal ele no seria o nico a fazer apresentaes. Poderia providenciar para fazer as suas antes dos outros.
	timo.
Os dois estavam prximos demais. Lembranas de dias perdidos retornaram  mente de Alec. Por um instante quase cedeu ao impulso de beij-la para despedir-se, como sempre fizera com a esposa.
 Vejo-a esta noite.
Marisa no acreditou quando a porta fechou-se atrs dele. Parecia a ponto de beij-la. depois saa daquela forma, como se tivesse medo que ela o seguisse at o trabalho.
O Sr. Alec Beckett no era um homem fcil de entender. Dando de ombros, Marisa voltou  cozinha. Tinha muito a fazer antes que ele passasse outra vez por aquela porta.
Captulo VII
Alec estava determinado a no se atrasar. Regulara seu despertador para as sete horas, uma hora estranha para acordar num domingo. Eram os percalos de se trabalhar numa companhia de programas de computador que pagava uma pequena fortuna pelo uso do crebro do empregado. Acreditavam que o corpo era um mero acessrio.
Seu corpo teria preferido permanecer na cama, porm no havia jeito de deixar aquele compromisso de lado. Com um suspiro de resignao, ele afastou os lenis e ergueu  corpo.
Era preciso admitir que a diretoria fora, at ento, flexvel com ele. Tratava-se de pagar um favor. Alm do mais, seu horrio sobrecarregado era apenas temporrio. Em pouco tempo tudo voltaria ao normal na companhia.
Com Marisa em sua vida as coisas haviam retornado a seus lugares, pensou Alec, ligando o chuveiro no mximo. Ela chegara e organizara todos os horrios do dia como um sargento benevolente, sempre apresentando uma certa flexibilidade. Provavelmente era a influncia da criao como filha de militar.
Fosse o que fosse, sentia-se grato. Tentava recordar-se de como eram as coisas antes da chegada dela, quando ele lidava pessoalmente com tudo. Em pouco mais de uma semana de estadia, Marisa tinha tudo funcionando nos eixos, com a preciso de um mecanismo suo.
Andrea adorava, ele tinha refeies quentes  mesa e sempre havia algum esperando por ele quando chegava em casa  noite. Algum com quem podia conversar de forma inteligente. Em trs das noites as conversas precisaram ser abreviadas porque ela partia para a aula, mas era melhor do que no ter ningum. Jamais se queixava, como Ellen, a ltima bab que comeava a reclamar assim que ele transpunha a soleira da porta.
Sentia-se um pouco culpado porque at ento no fora capaz de cumprir seu lado da barganha. Tivera de ir ao escritrio todos os dias da semana e no pudera ajud-la na quarta-feira, conforme o prometido.
Sem se intimidar, Marisa levara os dois para a creche com ela. Alec tentara compensar pagando pelos dois quando retornara, mas ainda se achava devedor dela. Provavelmente seria assim pelo resto de sua vida.
"No vamos nos empolgar", pensou Alec ao sair do banho e examinar o corpo molhado ao espelho. J acontecera antes. Ele se empolgava, se deixava levar e de repente algum tirava o tapete debaixo dele. O tombo era grande a cada vez.
No pretendia deixar que acontecesse mais uma vez.
Secou os cabelos e vestiu-se. Ao pentear-se, no espelho, resolveu cortar os cabelos assim que tivesse algum tempo disponvel. Mais um item a ser adicionado  enorme lista das coisas que ele no cumpria.
Perguntou-se se Marisa saberia cortar cabelos. Ela parecia do tipo capaz de fazer tudo numa casa, com eficincia e rapidez. Que idiota teria sido o marido dela, para deixar que ela se fosse dessa maneira?
Seria bom no comear a deixar a imaginao exagerar. Ela no era sua esposa e sim a bab de Andrea.
No permitiria que certos limites fossem ultrapassados somente por ter tido um sonho levemente ertico com ela.
Levemente ertico? Fora como um dia de vero numa praia do Equador, corrigiu mentalmente enquanto descia as escadas.
Escutou msica com influncia jazzstica. Seria o horrio de exerccios na sala. As batidas ritmadas eram acompanhadas pelo riso infantil. Alec parou  porta.
Os trs estavam ao cho, onde Marisa passava tanto tempo quanto ereta. Porm daquela vez apenas ela fazia exerccios, enquanto as crianas observavam. No as culpava. Estava usando um colante em vez da camiseta larga habitual, que poderia ser uma roupa confortvel para fazer exerccios, mas que o fazia ficar pouco  vontade. O tecido verde-escuro realava cada curva do corpo dela enquanto Marisa girava e fazia seqncias de movimentos, aparentemente sem esforo.
Fascinado, Alec permaneceu onde estava, esquecendo que deveria sair logo para no se atrasar. Chegou a perceber que ela no usava suti quando o corpo atltico esticou-se para trs. Ele sentia cada vez mais calor.
Nem percebeu seu prprio suspiro, porm ela sim. Surpresa, voltou-se na direo da porta.
	No percebi que tinha audincia.
	Na verdade eu estava de passagem  balbuciou ele, apanhado em flagrante. Estava parado e sabia disso.  Como consegue fazer isso?
	Com anos de prtica  respondeu ela, apanhando uma toalha e enxugando o rosto.  Est vestido em grande estilo para o caf da manh de domingo?
	Estava saindo para uma reunio fora da agenda  ele respondeu, sem conseguir tirar os olhos dela.
Marisa passou a toalha por sobre o pescoo, encarando-o.
	Voc trabalha aos domingos, tambm?
Alec sentiu uma pontada de culpa. Quase no ficara com Andrea naquela semana. Tivera mesmo de faltar s aulas. Sabia que a filha no tinha idade para importar-se, mas ele, sim.
	Habitualmente, no.
Marisa no ficara o tempo suficiente para saber o significado de "habitualmente". A ela parecia que se tratava de algum casado com o trabalho.
	Entendi que voc trabalhava alguns dias em casa.
Ela sabia que estava parecendo que tentava engan-lo. No imaginara que as coisas tomariam aquele rumo, mas no era um assunto sobre o qual tinha influncia. As coisas voltariam ao normal em pouco tempo. Entrementes, Alec no tinha alternativa.
	Sempre trabalho, mas no essa semana.
Ela apanhou Andrea, murmurando alguma coisa em seu ouvido, depois colocou-a no quadrado. Imediatamente a garota ps-se a mascar brinquedos de plstico.  
 O senhor tambm, mocinho.
Christopher iniciava seu truque escapista preferido, porm os blocos macios dificultaram a fuga. Alec aproximou-se.
Apanhado e colocado no espao limitado, o garoto comeou a conversar com Andrea. Os dois estavam se entendendo muito bem, ao contrrio dos adultos.
	No sou capaz de dizer como sou grato por sua presena aqui  comeou ele, perdendo o fio da meada quando Marisa voltou-se de frente para ele.  Quer dizer... no sei o que faria se no estivesse comigo... quer dizer, conosco. Espero poder compensar minhas faltas quando voltar.
Ela deu de ombros. Ajeitou uma das lapelas do palet, que estava fora de lugar. Sentiu a musculatura rgida sob o tecido.
	No h nada a compensar. Sou a bab. Minha obrigao  tomar conta de Andrea.
	Pode ser, mas eu concordei em colaborar com o seu horrio, no disse que voc precisaria viver  volta do meu.
	, eu me lembro vagamente do acordo.  Ela sorriu.
Talvez fosse alguma manifestao do covarde dentro dele, mas o fato  que Alec deu um passo para trs antes de prosseguir:
	E voc fez muito mais do que qualquer bab faria. Mal posso acreditar que est aqui h apenas uma semana.
	Isso  porque j faz uma semana e meia  esclareceu ela.
	Est vendo o que eu quero dizer? Voc sabe melhor do que eu o que est acontecendo por aqui. Eu diria que voc foi enviada pelos cus para me ajudar.
	Pode dizer, que eu no me importo  comentou ela, comeando a retirar as dezenas de brinquedos espalhados pelo cho.
Alec sabia que agora estaria atrasado de verdade, porm no conseguia tirar os olhos do corpo dela movendo-se pela sala. Algo distante comeou a tomar forma em sua mente, mas ele no deixou, dizendo para si mesmo que deixasse de portar-se como um adolescente. Ainda bem que ela no era telepata.
	E verdade. Voc  um anjo maravilhoso, enviado bem a tempo para evitar o colapso total da minha vida. Eu estava ficando maluco.
Ela voltou-se para encar-lo, com um brilho divertido nos olhos.
	Com um elogio desses, at que d para pedir um aumento...
	Quer negociar o salrio que a gente combinou antes?
	No precisa, aceito algum tempo livre para trabalhar na minha tese hoje  noite, obrigada  respondeu ela. Hesitou um pouco, depois continuou:  E se puder, um pouco de tempo em seu computador.
A princpio imaginara alugar um para terminar de digitar sua tese, porm seria bom ter um  sua disposio enquanto a tese no atingia um estgio mais desenvolvido.
	Fique  vontade  respondeu Alec.  Sabe usar?
	Sei, mas no posso me permitir comprar um agora. O preo das fraldas e da comida de criana acabou consumindo todo o dinheiro que eu tinha guardado para comprar um computador.
Talvez ele pudesse pegar um equipamento antigo no escritrio para ela. Um pequeno ajuste e ficaria pronto para competir com qualquer modelo do mercado.
Alec lembrou a si mesmo que deveria ir andando. Prometera encontrar-se s dez com um comprador potencial para um brunch em Newport Beach. Comida leve e programas de computador, uma combinao interessante. Principalmente se conseguissem o apoio de Maxwell, o cliente.
Embora soubesse que j deveria estar ligando o carro, Alec no conseguiu dar mais do que alguns passos. Na direo dela, no da porta.
	Nada desanima voc, no ?
	Muitas coisas me desanimam  admitiu ela.  S no deixo que essas coisas me faam parar. Se voc deixar algum ou alguma coisa vencer voc, est perdido.
Ela apanhava algumas revistas de informtica e ele abaixou-se para pegar uma que cara embaixo do sof.
	 assim que enxerga a vida, como se fosse um jogo a ganhar ou a perder?
	Algumas vezes. Mas no enxergo tudo como branco ou preto, com certeza. Alm disso, cada coisa ruim que acontece pode produzir alguma coisa de bom.
	Agora pareceu um texto de biscoito chins da sorte.
	Adoro bolinhos chineses da sorte.
	Que tal comida chinesa?
Ela no entendeu completamente o que ficava implcito naquela pergunta. Preferiu no se comprometer.
	Combina com o biscoito.
	Muito bem. Ser comida chinesa esta noite. Por minha conta.
	Vai trazer para casa, me levar at ela ou espalhar pelo corpo?
Alec riu. Desde que ela entrara na casa ele percebeu que vinha rindo com muito mais freqncia. Estava consciente do perigo em sua atitude e tentava distanciar-se emocionalmente dela. Contudo, cada vez ficava mais difcil, seno impossvel, pois era uma aproximao natural. As coisas no duravam muito e era preciso aproveitar enquanto duravam. Em pouco tempo terminavam.
Peio menos as coisas boas.
	Voc escolhe.
Fazia muito tempo que ele no levava algum a um restaurante, mas seria necessrio contratar uma bab para tomar conta das crianas. Tanto Jane quanto sua me nunca estavam disponveis aos domingos, o que estreitava as opes de Marisa.
	Bem. a verdade  que no consigo imaginar voc envolto em macarro chins e muito menos em porco agridoce. Sair no daria certo, portanto acho que o
melhor mesmo  voc trazer para casa.
Assim seria ideal, pois no daria margens a outras interpretaes. Por outro lado... teria medo de sair com ele?
	Por que no samos?
Algo na maneira como Alec olhou para ela fez com que Marisa perdesse a respirao por um instante. As vezes esquecia como ele era bonito. Seu pulso acelerou-se e ela deu de ombros, sentindo-se pouco  vontade.
	Porque no vamos conseguir uma bab com to pouca antecedncia.
	Sua amiga...  comeou Alec, sabendo que pisava em terreno perigoso.
	Minha amiga no est disponvel hoje. Nem sua me  interrompeu ela.  Alm do mais, voc no quer sair comigo de verdade.
	No?  Alec espantou-se.  E por que no, posso saber?
	Porque est ocupado demais. Porque...  Marisa interrompeu-se ao perceber que no adiantava especular os motivos. Preferia a abordagem direta:  Quer ou no quer?
Nesse instante Alec percebeu que desejava sair com ela. No apenas para demonstrar a gratido por organizar todos os pontos de sua vida, mas tambm porque era Marisa, com quem conseguia conversar com naturalidade. Porque os cabelos dela tinham um cheiro gostoso. E porque sonhara com ela outra vez.
Alec estava to prximo que podia sentir-lhe o calor. A garganta de Marisa ficou subitamente seca. Percebia cada segundo a arrastar-se na direo da ansiedade. a esperar pela resposta dele. Pelo contato final entre os dois.
Se ficasse um segundo a mais, Alec faria algo que poderia lamentar amargamente.
	 melhor eu ir andando  disse, com voz rouca. Em vez de partir, ergueu as mos e deslizou-as pelos ombros de Marisa, devagar, imaginando o corpo macio abaixo do tecido. Permaneceu ali como se tivesse sido congelado contra a vontade.
	Alec?
	Sim?  disse ele, gostando do som do prprio nome nos lbios dela.
	Ningum vai sair machucado se voc me beijar  arriscou Marisa, antes que perdesse a coragem.
	Isso  que eu no sei...  murmurou ele, sem entender por que no ia embora enquanto podia.
	E no est nem um pouco curioso para saber?  perguntou ela em voz baixa.
	Sabe muito bem o que eles dizem sobre a curiosidade ter matado o gato, no sabe?
	Ao que me consta nenhum de ns dois  gato. As mos de Alec baixaram para os quadris dela,
percebendo a resposta e o calor da pele abaixo, que deu a impresso de despertar depois de um longo inverno.
	Voc no devia estar praticando psicologia infantil? Marisa sorriu.
	Existe um pouco de criana em cada um de ns. Ele no conseguia desviar o olhar dos lbios dela, que se moviam de forma tentadora enquanto desenhavam as palavras. Talvez estivesse vulnervel daquela forma pelo excesso de trabalho da semana. Ou ento, com a vida fluindo melhor e Andrea bem cuidada, comeasse a sentir os efeitos da solido.
Subitamente no achou mais necessrio analisar os motivos de seus sentimentos. Pelo menos no com o corpo de Marisa to prximo ao seu. Sentindo o corao bater como um motor acelerado, baixou os lbios at os dela. A ltima coisa que pensou ter escutado antes de toc-los foi um murmrio:
	Gernimo.
Tinha de ser uma alucinao. Poucos segundos depois encontrava-se completamente convencido disto. Beijar uma mulher nunca fora parecido com o que sentia no momento. Foi como se, durante uma tempestade, um relmpago se tivesse abatido sobre sua cabea.
Perdendo o flego, a cabea e a prpria identidade, foi enviado aos confins do espao por aquele toque suave. Para o interior de um buraco negro de cuja existncia jamais suspeitara. Talvez no retornasse vivo.
Nada importava, enquanto se entregava completamente quela sensao nova.
O corpo de Marisa parecia estar esperando por aquele contato h muito tempo, pois correspondeu como se tivesse vontade prpria, apertando-se contra Alec. Marisa jamais percebera a si mesma num tal estado de entrega.
Por outro lado, sabia.
Em seu corao, desde que conhecera aquele homem, soubera o que aconteceria. Que o beijo dele poderia provocar tal efeito nela. Que o cho iria tremer  sua volta e ainda assim a encheria de paz e felicidade, a ponto de trazer lgrimas aos olhos.
Alec tinha a impresso de escutar sinos no interior da cabea, sem saber se o som era real ou no. Como uma mulher conseguia beijar daquela forma? Retirou a boca de sobre a dela com um arfar sem flego. O som intermitente continuou, na forma de uma campainha eletrnica.
 Acho que  o telefone  sussurrou Marisa, em voz quase inaudvel.
Por um instante ele no conseguiu encar-la. Gostava de estar sempre preparado para o que acontecia. Mas nem em um milho de anos poderia ter se preparado para aquilo. Nada fornecera a menor pista de que as defesas que o haviam protegido por tanto tempo cairiam por terra como se fossem pulverizadas pelo toque dos lbios de Marisa.
Precisava beij-la outra vez. Tinha de fazer amor com ela. Em sua cama.
Na cama onde fizera amor com Cristina.
Esse pensamento foi como um banho de gua fria em seu entusiasmo. No podia continuar.
Escutou o som da prpria voz na secretria.
Incapaz de produzir qualquer pensamento coerente, Alec sentiu o corpo estremecer. Outra voz falou na secretria e aos poucos o sentido das palavras comeou a penetrar em sua mente.
	Alec, espero que no tenha sado ainda, porque perdi o maldito nmero do telefone do seu carro e no tenho outra maneira de falar com voc. Tivemos de
adiantar o compromisso para as nove e meia. Preciso de voc aqui com seus grficos agora mesmo.
Como algum que estivesse em transe, Alec caminhou at a secretria eletrnica, apanhou o receptor e pressionou o controle que aceitava a chamada.
	Al...
	 voc, Alec? Sua voz est estranha, que aconteceu? Est doente?
Os olhos postos em Marisa, ele demorou a responder.
	Sim? Quer dizer, no, no estou doente. Acho que no.
Marisa estranhava a reao dele. Ser que ele no apreciara o que acontecera entre ambos? Ela sim. E sabia que no estava relacionado ao fato de que no encontrara ningum desde que Antnio se fora. No tivera vontade de tocar outro homem.
At aquele instante.
Alec parecia preocupado e ela gostaria que ele se sentisse feliz. S ento recordou-se que os homens costumam sentir medo de tudo o que no controlam. Ela sabia que nenhum dos dois poderia controlar o que existia entre eles, mas ficava feliz, no assustada.
	timo. Quero que venha para c o mais rpido possvel  dizia Rex.  Maxwell ainda no se decidiu sobre aplicar o dinheiro no negcio e precisamos conseguir o capital dele para agir em escala nacional. Se algum pode convencer aquele homem, esse algum  voc!
No momento Alec no se sentia capaz de convencer um coelho faminto a comer cenouras. Talvez o nevoeiro em sua cabea se dissipasse durante o trajeto no carro. Esperava fervorosamente que sim.
	Claro. Estarei l.
	Tem certeza que est se sentindo bem? Continuo a achar sua voz estranha.
Desligou sem responder, provavelmente deixando Rex ainda mais preocupado. Sem saber como responder quela pergunta. No conseguia raciocinar direito. Apesar disso, sentia-se maravilhoso. Era preocupante.
	Marisa  comeou ele, escolhendo as palavras. Ela conhecia uma reao de pnico quando via uma.
Apavorava-o que ela desejasse qualquer tipo de compromisso entre ambos, porque haviam se beijado uma vez.
	E melhor voc ir andando  interrompeu ela.  Pelo jeito, deve ser importante,.
Ele dirigiu o olhar ao aparelho telefnico como se visse ali um animal extico.
	Era, quer dizer...   balbuciou ele.  Bem, a respeito do que aconteceu aqui...
	Foi timo. Mas no deve atrasar voc.
Ser que ele fora o nico a ser afetado daquela forma?
	O que acha que devemos fazer a respeito?
	No sei ainda.
	Marisa, no estou querendo comprar nada...
	timo, porque tambm no estou querendo vender. Agora, sugiro que se ponha a caminho.
	Certo  concordou ele com voz hesitante.  Volto logo que puder.
Caminhou at o quadrado e beijou a filha. Saiu da sala apressadamente.
	Alec  chamou a voz de Marisa atrs dele.
	Sim?
Ficou parado, aguardando.
	Acho que voc esqueceu isto  avisou ela, trazendo a pasta.
Ele olhou para a valise contendo os grficos que precisava levar com urgncia. Como pudera deixar os documentos na cozinha?
	Obrigado.
Escutou a prpria voz como se viesse de outra pessoa. Todas as fibras do seu ser queriam ficar e conversar com aquela mulher. Dizer a ela que no tinha para onde ir e beij-la outra vez.
Mas Rex e Maxwell estavam esperando, portanto no fez nada disso. Saiu de casa. O mais rpido que pde.
Captulo VIII
As horas pareciam feitas de melado escorrendo em uma ampulheta estreita. Demoravam a passar como nos tempos de escola, aguardando a hora da sada. Alec controlava-se para no consultar demais o relgio. Afinal, j colocara seus pontos de venda e respondera  infinidade de dvidas de Maxwell. Agora escutavam o cliente falar. Sem parar.
No havia dvida de que gostava de conversar, mas Alec no tinha a menor disposio para isso. Preferia estar em casa. Com Andrea, adicionou mentalmente, como se um juiz em sua mente o fizesse sentir-se culpado. Desde que beijara Marisca, algo se modificara nele.
Talvez aquilo s continuasse mais alguns minutos. Maxwell parecia quase ao final de sua histria. At ento, tudo correra bem. Rex sorria ao invs de apresentar aquela expresso preocupada que se tornava uma constante nas reunies mal sucedidas. Ele era o responsvel pela parte financeira da companhia; enfim, era pago para preocupar-se.
 Gosto de colocar meu dinheiro onde ele rende bastante  disse Maxwell, encerrando com chave de ouro sua histria.
Bruce Maxwell, um homem com uma expresso que ficaria bem numa grgula de catedral, tinha a disposio de um querubim; inclinou-se para a frente, em tom ntimo e deu um tapinha nos charutos que levava no bolso. Olhou para eles com antecipao, pois o restaurante onde se encontravam no possua seo para fumantes.
	Um bom charuto vai selar esse belo negcio  disse ele, lanando um olhar matreiro na direo de Rex.  Mais o meu cheque, claro.
Todos riram, o diretor financeiro com uma nota de nervosismo. Alec sabia que ele no iria relaxar at receber o cheque e o comunicado do banco confirmando os fundos. Mesmo assim, com reservas.
	Que tal sairmos para fumar no estacionamento?  sugeriu Alec, percebendo que Rex se levantava.
Finalmente terminariam a reunio. Para dizer a verdade, gostava de falar sobre seu trabalho aps as reunies, pois encarava os produtos como filhos. Tinha prazer em descrever suas capacidades.
Porm naquele instante sua mente no estava mais voltada para o trabalho. Estava no acontecido daquela manh e nos lbios macios que haviam deixado a marca em sua alma, como um ferro em brasa virtual. Nada do que acontecera no restaurante, apesar do vulto do negcio, ocupava seus pensamentos naquele instante
Maxwell passou a mo em seu ombro num gesto de camaradagem, enquanto Rex seguia atrs, tendo se encarregado de pagar a refeio. Alcanou-os  porta. O comprador, que se orgulhava de seu sangue ndio por parte de me, esperou at que se encontrassem a uma distncia razovel do restaurante para extrair trs charutos embrulhados em celofane. Uma espcie de cachimbo da paz para selar o acordo.
Rex aceitou, olhando com certa desconfiana, pois no cultivava o hbito de fumar charutos. Maxwell voltou-se para Alec.
	Fuma, jovem?
Com sessenta e trs anos e uma fortuna enorme, Maxwell achava-se no direito de chamar de "jovem" qualquer um que parecesse mais novo em algum aspecto; porm, como cultivava o hbito de distribuir dlares a rodo, ningum se ofendia com isso.
Alec percebeu que o scio o observava intensamente, desejando um companheiro para sua desventura. Porm Alec no tinha a menor inteno de fazer com que a comida se revolvesse em seu estmago.
	No, obrigado. Eu no fumo.
	Ento fique s cheirando  sugeriu Maxwell, entregando o charuto assim mesmo.
Fez uma demonstrao olfativa com o prprio charuto, retirando o celofane e passando-o entre o nariz e o lbio superior, bem devagar. Inalou profundamente e fez uma expresso de xtase.
Alec controlou sua vontade de rir.
	O aroma  sutil. Tentador. Como uma mulher de rosto clido olhando para a gente  continuou o cliente, sem fazer meno de apanhar o talo de cheques.  Uma experincia que no deve ser apressada e sim saboreada.
Como beijar Marisa, sussurrou uma voz na mente de Alec. Ele considerou que um beijo era um beijo e ponto final. Principalmente porque no pretendia repetir o mesmo erro.
Maxwell mordeu a ponta do charuto com os dentes da frente e cheirou todo o cilindro antes de acender. Enquanto aproximava a chama do seu, ergueu uma das sobrancelhas, encarando Rex, que comeou a imitar os movimentos do cliente, fazendo o possvel para expressar o mesmo prazer. Era necessrio acompanhar Maxwell no ritual completo, para fechar o negcio.
Em circunstncias normais adoraria permanecer para observar o tom esverdeado em Rex, mas estava ansioso para partir.
	Vo precisar de mim ainda?
O diretor financeiro exalou a fumaa de uma vez, assumindo um ar incerto. Maxwell, entretanto, no hesitou.
	No. J terminei com as perguntas por hoje, jovem. Pode ir para casa, que ela deve estar esperando.
	Ela?  Alec espantou-se.
No dissera coisa alguma a respeito de Andrea para o cliente. Como ele poderia saber?
	Estou vendo uma mulher em sua mente, jovem. Nada mais deixa a gente com esse ar areo o tempo todo. Estou velho e conheo todos os sinais. No pense que no percebi as espiadelas para o relgio. Pode ir, que ela est esperando. V em frente, jovem  incentivou Maxwell.
Alec percebeu que Rex o observava cheio de curiosidade, por trs da cortina de fumaa azulada. Myra, sua esposa, tentara vrias vezes convid-lo para jantar com a nica inteno de compromet-lo com alguma das amigas solteiras. Ele sempre recusara.
	Existe mesmo uma mulher. Ou pelo menos uma mulher em treinamento. Ela tem um ano de idade  explicou ele.  Minha filha Andrea.
O homem mais velho balanou a cabea, negando a desculpa.
	No, senhor. Essa coceira que est sentindo no foi provocada por ela.  preciso muito mais idade para isso. Posso ver isso em seus olhos, jovem.
Alec franziu a testa. O homem estava obviamente intoxicado pela fumaa do charuto. Pretendia voltar logo para casa, s isso. Apertou a mo do outro.
	Foi bom fazer negcio com o senhor, senhor Maxwell.
	Igualmente, jovem. A gente se v por a.
Alec acenou para os homens, recuando. Seu carro no estava longe.
	Vejo voc no escritrio amanh  gritou Rex, de longe.
	Eu estava pensando em trabalhar amanh em casa. Tenho servio atrasado para fazer.
 Tudo bem. Metade do dia  respondeu o outro, pressionado pela presena do cliente.
	Que metade?  quis saber Alec, mais longe.
	Escolha a metade maior  sugeriu Maxwell.  Pea a manh.
	A manh.
Rex concordou com um gesto relutante de cabea, principalmente porque ainda no recebera o cheque e no queria correr risco algum de desagradar Maxwell. Alm do mais aquele dinheiro representava a expanso da companhia, um passo que desejavam dar h muito.
Por que no estaria mais feliz com o negcio? Por que sentia essa espcie de tontura que o impulsionava em direo a casa? Precisava voltar a ver a filha, decidiu.
Observou o relgio ao sentar-se* atrs do volante. Duas horas da tarde. Quatro horas e meia para alimentar e convencer o homem. No fora rpido, mas pelo menos o restante do dia ficava  sua disposio. Podia ir para casa.
Mas no sem antes fazer uma parada.
Ambas as crianas pareciam mais cheias de energia do que habitualmente. Marisa ficou grata porque fazer alguma coisa evitava que pensasse muito. Porm, a verdade  que a lembrana do beijo permanecia recente como uma torrada que se recusasse a entrar na torradeira, por mais que se apertasse o boto. A lembrana no a deixou em paz durante as atividades higinicas e os jogos matutinos com as crianas. Vinha acompanhada de reaes fsicas, como a acelerao do pulso quase to forte quanto no instante do beijo, quando a lngua dele deslizara por sobre seus lbios. At o sabor retornava.
Se ao menos ele no tivesse ficado com expresso de quem ia fugir a qualquer momento... por outro lado, Alec devia ter ficado to assustado quanto ela.
	O nico jeito de enfrentar os medos  de frente  declarou ela para sua platia infantil. Depois dirigiu-se a Andrea:  S espero que papai saiba disso.
A campainha soou.
Alec no dissera nada sobre estar esperando algum naquela tarde, e no podia ser ele, a menos que tivesse esquecido a chave. Colocou os bebs, um a um, no quadrado de brincar, recomendando que se comportassem bem. S ento dirigiu-se  porta.
	O visor da porta  murmurou, recordando a si mesma em voz alta a recomendao.
Espiou pela lente de aumento da abertura circular e deparou com uma senhora bem vestida e com certa impacincia estampada no rosto. Acionou outra vez a campainha e simultaneamente Marisa abriu a porta.
	Pois no?
A senhora, com ar empertigado e cabelos avermelhados, mediu-a de alto a baixo. Os olhos, de um verde quase brilhante, no deixaram passar nenhum detalhe nesse exame.
	Posso ser til?  insistiu Marisa.
A mulher passou por ela, como se no a tivesse escutado.
	Alec est?
	Sinto muito, ele saiu.
A visitante voltou-se. Um sorriso bailou em seus lbios.
	Melhor assim. Dessa forma podemos nos conhecer sem sermos interrompidas.
	Senhora Beckett?
Aquele dia prometia ser exaustivo emocionalmente. Primeiro Alec virava sua cabea do avesso, agora vinha a me para apanhar os pedaos. Se sobrevivesse s prximas horas, podia agentar qualquer coisa.
	Como soube quem eu era?  indagou Roberta, agradavelmente surpresa.
	Tem os olhos dele.
	Ele tem meus olhos.
	Certo, ele tem seus olhos  admitiu Marisa, conduzindo a visitante para a sala de estar.  Vamos entrar, por favor.
Christopher e Andrea pareciam envolvidos numa ruidosa modalidade de cabo-de-guerra. As coisas nunca vinham sozinhas...
Alec reconheceu o carro ainda na rua. Um Mercedes seda azul. Estava estacionado na entrada de carros, em sua casa.
Era Roberta.
Ela nunca fazia as coisas sem motivo. Jamais viera visit-lo; preferia telefonar para que ele se locomovesse at ela. Como uma rainha chamando o sdito.
Teria acontecido algo com Andrea?
Apressou-se a estacionar atrs do carro da me e caminhar para a porta de entrada, diminuindo o passo quando lembrou que Marisa no tinha o nmero telefnico de Roberta. Por que ento sua me viera at sua casa?
No sabia o que esperar quando entrou. Imaginou as malas de Marisa prontas em frente  porta, pois Roberta tinha esse efeito sobre as outras mulheres, principalmente as que eram mais jovens. As inimigas, que precisavam ser dominadas de uma forma ou de outra. A lngua ferina era uma arma mais do que adequada para essa tarefa.
Preparado para tudo, Alec entrou na casa, olhando para todos os lados. O som de bulha infantil e vozes femininas conduziu-o para a sala de estar.
Prendeu o flego.
Marisa tivera o bom senso de mudar de roupa, trocando o colante por cales e camiseta. O efeito geral ainda era tentador, porm um pouco mais decente.
Para seu espanto, ela parecia completamente  vontade. Talvez Roberta ainda no tivesse tido tempo de encaixar um golpe mortal.
	Oi, Roberta. O que est fazendo aqui?  cumprimentou ele, caminhando at Andrea.
Abraou a filha antes de recoloc-la no assoalho forrado outra vez.
	Finalmente chegou  comentou Roberta, como se ele ainda tivesse nove anos de idade, entrando em casa atrasado para o almoo, com a roupa suja.  Isso so modos de cumprimentar sua me?
	Desculpe, acho que fui apanhado desprevenido pela surpresa. E quanto a onde eu estava, Roberta, estava trabalhando  afirmou, beijando formalmente a bochecha materna.
	Num domingo? No existe alguma coisa escrita sobre trabalhar aos domingos?  indagou ela, o olhar procurando o apoio de Marisa.
Nada mudara, pensou Alec.
Marisa simplesmente encolheu os ombros. No tinha a menor inteno de intrometer-se na longa discusso entre me e filho. Ele percebeu o gesto e indagou-se at que ponto as duas se haviam entendido, antes de sua chegada. Como uma das mulheres era sua me, um entendimento era impossvel; s vezes ela tolerava as outras.
Alec acomodou-se no brao do sof, alerta ao menor sinal de ataque.
	No se a gente tem um cliente milionrio para agradar.
	Teve sucesso?  quis saber Marisa.
	Deixei Rex sorrindo e fumando charuto  respondeu ele, imaginando a cena.
Ela percebeu, pela forma como fora dito, que o tal Rex, fosse quem fosse, no tinha nenhum dos dois hbitos. Fora um resultado positivo, portanto. Indagou-se se Alec percebera que ela no sabia coisa alguma sobre seu emprego. Tinha apenas uma idia geral sobre as atividades profissionais dele.
Por outro lado, a visita da me dele preenchera vrias lacunas. A imagem de uma mulher criada para acreditar que coisas como o amor no existiam veio  sua mente. Por isso era importante a forma como o pai tratava Andrea. Ele a amava. E amara a esposa, pela forma como falava dela.
	O que conseguiu tirar voc do palcio num domingo, Roberta?
Longos clios artificiais piscaram sobre os malares que custavam uma fortuna em cirurgia plstica para manter elevados. Roberta estudou as unhas antes de responder. No acreditava em meias palavras.
	Vim para ver a mulher que voc contratou com tanta urgncia.
	Roberta...  comeou Alec.
	Eu estava justamente dizendo  Melissa, aqui...
	Marisa  corrigiu ele, antes que a prpria tivesse oportunidade.
Com um aceno de cabea Roberta aceitou a correo, ainda que no o fizesse verbalmente.
	Que os homens no sabem como conduzir entre vistas. Tudo o que desejam  conseguir ajuda em pouco tempo. Cabe a ns, mulheres, verificar se certos requisitos so preenchidos ou no.
	Pensei que seu nico requisito fosse que a bab estivesse respirando.
	No seja infantil, Alec  respondeu ela, erguendo a mo para causar efeito dramtico.  S porque no fui a av do ano, no quer dizer que eu no goste de Andrea, ou que no ligue para ela. S quero descobrir que tipo de pessoa voc contratou para tomar conta dela.
Ele no sabia se ficava envergonhado ou irritado com aquela intruso. Roberta escolhera a pior hora possvel para bancar a av.
	Roberta, posso falar com voc um minuto?  pediu ele, mantendo a voz baixa para no se irritar.
	Voc est falando comigo agora, meu bem.
Os olhos dele se estreitaram. O que pretendia ela daquela vez?
	Eu quis dizer em particular.
	Mais tarde  concedeu ela, voltando a ateno para a bab.  Depois que eu terminar.
Ela media Marisa. Como Alec mantinha a plena convico de que nenhuma mulher poderia enfrentar Roberta, precisava encontrar uma maneira de afastar uma da outra. No pretendia testemunhar um massacre.
	Por que esse interesse sbito, Roberta? Voc nunca quis antes fazer nenhum interrogatrio.
	Entrevista, meu bem, no interrogatrios. Gostaria que voc usasse as palavras de forma mais adequada. Alm do mais, das outras vezes voc conseguiu as babs de outras agncias, que faziam esse trabalho por voc. No foi o caso desta vez, foi? Sei que  uma coisa tediosa, mas algum precisa fazer isso. J tnhamos quase acabado quando voc chegou. S faltam mais algumas perguntas.
Alec olhou de soslaio para Marisa, que no parecia importar-se.
	Voc j foi presa?  comeou a me.
	Roberta!
Desta vez foi Marisa quem ergueu a mo para silenci-lo. Podia cuidar de si mesma, embora fosse obrigada a admitir que a chegada de Alec fora providencial. Seus olhos estavam postos em Roberta, sem dar indicao que iriam desviar-se.
	No.
A mulher mais velha olhou para Christopher.
	J foi casada?
	Roberta, acho que isso no...
	J  confirmou Marisa.
	O que aconteceu?
	Agora voc foi longe demais. No  da nossa conta  protestou Alec.
A mulher mais velha pareceu chocada com a forma pela qual o filho se dirigiu a ela.
	Mas claro que ! E se ele a tiver deixado por maus tratos?
	Voc est sendo ridcula  desabafou ele, voltando o olhar para verificar os efeitos.  Marisa, quero me desculpar por tudo isso, porque...
	Meu marido me deixou porque no queria um filho no momento. Porque era incapaz de partilhar seu corao com uma criatura pequena e indefesa  disse ela, apertando os lbios. Se as coisas tivessem corrido da forma que Antnio sugerira, Christopher jamais teria nascido.
Roberta estudou a mulher mais jovem por alguns instantes.
	E voc  capaz de partilhar seu corao?
	Sou  foi a resposta imediata.
Roberta assentiu, erguendo-se. Escutara o suficiente e sabia o que viera saber. Antes de sair, anunciou por sobre o ombro para o filho:
	Ela est aprovada.
Alec foi apanhado de surpresa. Imaginava uma longa e exaustiva argumentao em torno do assunto, e que seria forado a interceder por Marisa.
Roberta era rpida e dolorosa. E agora, imprevisvel. Ele tocou-lhe o ombro, forando-a a encar-lo.
	S isso?
Ela observou-lhe a mo, at que o filho a retirasse.
	Isso  mais do que o suficiente. Ela vai ser tima para nossa garotinha.
Se no a conhecesse melhor, Alec diria que percebera um tom de inveja na frase da me. Como se tivesse cimes de Marisa. No da aparncia, mas de alguma outra coisa.
Porm no seria possvel. Roberta jamais teria inveja de algum, porque esperava que os outros tivessem inveja dela.
	Nossa garotinha?  repetiu ele.
	Claro. Voc a trouxe para mim quando precisou de ajuda, no trouxe?  disse ela, buscando o olhar de Marisa, que observava da porta da cozinha.  Eles sempre esquecem a necessidade que tm de ns.
Alec ficou sem palavras. Roberta unindo foras com Marisa? Sua me jamais se dignava a partilhar qualquer tipo de sentimento com nenhuma mulher. Considerava-se num nvel superior.
Marisa sorria.
	Bem, vou indo. Scott Baron vai me levar ao hipdromo  continuou Roberta, pousando uma das mos no brao do filho.  Para dizer a verdade acho muito maante, mas gosto da comida que eles servem nos camarotes. O pato assado de l  fantstico.
Obedecendo a um ritual silencioso, Marisa avanou com Andrea nos braos. Roberta passou a mo de leve sobre os cabelos da menina, mal roando os fios sedosos.
	Tome conta deles  recomendou ela  bab.
	Pode deixar, madame  respondeu Marisa com um sorriso.
	Pode me chamar de Roberta, meu bem. Madame pode dar a idia de que sou mais idosa.
	Foi bom conhecer voc  corrigiu Marisa. Andrea aninhou-se no colo dela, colocando o polegar
na boca.
Me e filho afastaram-se da casa.
	Muito boazinha essa moa...
	Muito bem, Roberta. Qual o propsito de sua visita?
	Quero zelar pelo seu bem-estar, s isso. Pelo seu e pelo de Andrea. No prestou ateno? Eu estava fazendo uma entrevista para voc.
	Voc estava s bisbilhotando, isso sim.
	Talvez eu estivesse interessada em saber quem era a mulher que entrou em sua vida. Afinal, voc nunca saiu com ningum desde que Cristina morreu.
	No estou saindo com ningum agora, como voc est insinuando, Roberta. Tenho os olhos abertos.
	Seja como for, meu bem. Mas se voc acredita mesmo nisso, ento acho melhor abrir os olhos de verdade  comentou ela. Como ele fez cara de quem no entendera, ela continuou:  Eu a aprovo.
	No estou entendendo. Voc nunca aprova mulher alguma.
	Isso no  verdade. E que tenho certos padres, Alec. Assim como voc. Eu me importo, talvez  minha maneira, mas eu me importo. Com os dois.
	Voc est tentando me dizer alguma coisa, Roberta?
	No  nada  afirmou ela, perdendo o tom suave.  Tome cuidado, meu bem.
Mandou mais um beijo de longe antes de entrar no carro. Alec ficou observando enquanto a me desaparecia do campo de viso. Seria aquela a Roberta que ele conhecia ou ele teria detectado uma tentativa de comunicao.
Como sempre quando o assunto era sua me, Alec no tinha a menor idia.
Captulo IX
Quando ele entrou, Marisa descia as escadas, tendo acabado de colocar as crianas para dormir. Continuava com ar despreocupado. Se a visita de Roberta provocara alguma reao visvel, fora a de diverti-la. No compreendia como ela estava inclume, quando todas as outras mulheres ficariam ofendidas com as perguntas de Roberta. Comeava a achar que Marisa era um tipo raro de ser humano.
	Sua me  muito pitoresca  comentou ela, casualmente.
Alec acompanhou-a, no caminho para arrumar a sala que ficara de pernas para o ar, depois do furaco chamado Roberta.
	E mesmo. Sinto muito se ela insultou voc. Nem ocorrera a Marisa sentir-se ofendida. No imaginara que essa fosse a inteno da me dele.
	Ela s est preocupada com voc. E com Andrea.
	Preocupada? Roberta? A nica coisa que pode preocupar Roberta  a aparncia jovem que ela procura manter a qualquer custo. Resolveu parecer para sempre uma mulher glamourosa na casa dos trinta.
Ela percebeu que Alec no se dava conta sobre a idade real de sua me. Certa vez perguntara e ela respondera que ele no precisava saber. S sabia ao certo que ela alterava a data de nascimento a cada vez que tirava nova carteira de identidade. Fora magoado, pensou Marisa. A primeira mulher que entrara em sua vida o recompusera, mas ainda existiam cicatrizes.
Tinha vontade de confort-lo. Se ele apenas deixasse.
	Pois ela est fazendo um bom trabalho nesse sentido. Parece mais sua irm do que sua me  comentou ela, sentando-se para juntar um quebra-cabeas de madeira.
Alec juntou-se a ela para ajudar a compor uma cena buclica. Vira Marisa com as crianas, repetindo pacientemente o nome de cada animal e depois passando os dedinhos desajeitados por eles, para que reconhecessem a forma e o encaixe.
	Ela vai ficar contente em saber disso. E exata-mente a impresso que gosta de causar  afirmou ele, encaixando a ltima pea.  Foi muito ruim?
	Voc assistiu  pior parte. No se preocupe. Sua me no  grande coisa comparada com o Sargento.
	O Sargento? Quem ? Seu pai?
	Era  corrigiu ela.  Morreu h alguns anos. Uma baixa numa daquelas misses de paz que tm nomes horrveis.
	Sinto muito.
	No precisa. Era a forma como ele gostaria de morrer. Numa terra estrangeira, a servio de seu pas. Minha me casou no ano seguinte e foi a primeira vez que a vi feliz.
	O Sargento... foi muito rgido com voc?
Marisa deu de ombros. O tempo cicatrizava a maioria das feridas. Entendia melhor o pai agora, sabendo que ele fizera o possvel, levando em conta o temperamento que tinha.
	Ele no achava que fosse assim, mas a verdade  que era. Mais comigo do que com os outros filhos, porque eu era a mais velha. Dizia que ele precisava dar o exemplo.
Vinha da a tendncia dela de auxiliar os mais fracos, pensou Alec. Algum para chamar a ateno do pai sobre si e poupar os outros.
	Todas as vezes em que eu saa com algum, parecia uma cena de tortura num filme policial para arrancar informaes do coitado. Meu pai fazia questo. Geralmente os rapazes ficavam apavorados.
	Passou por isso durante muito tempo?  quis saber ele, imaginando a infncia dela.
	No. Felizmente o Sargento passava a maior parte do tempo fora. Acho que era uma compensao pelo tempo que passava em casa. A maior parte dos pais procura fazer essa compensao saindo com a famlia, ou trazendo presentes, mas meu pai acreditava que devia nos educar como um batalho de recrutas  confidenciou ela, erguendo a cabea da forma que o Sargento exigia quando falava.  Velhos hbitos so difceis de quebrar. Mas a boa postura que tenho devo a ele.
	Voc deu a impresso de dizer isso como se tivesse decorado.
	Decorei mesmo. O Sargento tinha um cdigo. Depois de todos esses anos, sei tudo de cabea. Uma das poucas coisas que ele me permitiu conservar.
	Pois eu acredito que ningum possa "permitir" coisas, quando se trata de voc, Marisa. Voc faz o que quer.
Alec sentia vontade de tocar aquela pele macia, sentir outra vez os lbios dela em contato com os seus, como pela manh.
	E isso o que voc acha?
	.
Prestando ateno ao redor para verificar se no esquecera brinquedo algum pela sala, ela admitiu:
	Pode ser verdade, em parte. No gosto de ultra passar meus limites, mas aqui...  Ela tocou o peito dele.  E aqui...  Tocou-lhe as tmporas.  Sou eu mesma. Ningum me diz como pensar ou como sentir. Sempre foi assim.
As mos dele capturaram as dela, enquanto os olhos de ambos se encontravam.
	Como j disse, voc  muito independente. Eu no sabia que independncia podia ser uma coisa excitante  murmurou ele, aproximando o corpo.
	E agora?
	Agora... agora eu acho.
Alec no conseguia parar. Achou que seria capaz de controlar-se, mas simplesmente no fora possvel. O contato entre os dois pela manh permanecera em sua memria durante todo o tempo em que no estava usando a mente para o trabalho. Simplesmente precisava saber se a intensidade da reao fora pelo tempo em que ficara inativo desde a morte de Cristina. Desde que sua alma se apagara.
Tinha de beij-la outra vez para descobrir. Talvez fosse apenas uma justificativa para o impulso fsico que o impelia a aproximar-se dela. Talvez tivesse alguma outra alternativa.
O toque dos lbios foi entontecedor. Como se um rodamoinho se abrisse em sua mente, aprofundando o beijo e arrastando as sensaes para o fundo do corao.
As mos dele envolviam a nuca delicada. Procurava agarrar-se a ela como se apenas aquele corpo existisse no mundo real; quanto mais a apertava, mais era arrastado para regies insuspeitadas no espao.
Era o gosto da rendio nos lbios de Marisa. O toque que o fazia desejar mais ainda.
Daquela vez ela no tentou refrear seus impulsos. Estava preparada para perder-se nos braos daquele homem, sabore-lo. Podia sentir cada movimento, cada toque. Seus sentidos pareciam ter ampliado a percepo. O sangue pulsava forte nas veias, intensificando todas as reaes. Ela fazia parte de tudo.
Desejava que continuasse para sempre.
Como se no existisse ningum mais no mundo. Apenas a presena dele: Alec.
Imaginou se ele faria idia do efeito que produzia nela. No acreditava que estivesse consciente disso. S sabia que no queria parar.
Marisa passou os braos ao redor do pescoo forte, gemendo com a intensidade do prazer que percorria seu corpo em ondas. Prazer que ele criava.
Lentamente Alec afastou-se, abalado. Incapaz de raciocinar. Encostou a palma da mo no rosto dela, encarando-a. Bem no interior dos olhos. Olhando a mulher que o fizera cavalgar estrelas com um beijo.
O que estaria acontecendo com ele?
	Eu no queria...  balbuciou.
	Queria, sim  corrigiu Marisa, depois de procurar a resposta nos olhos dele.
Alec sentia-se incapaz de raciocinar direito, e por isso mesmo estava inseguro. Aquilo no podia levar a nada muito diferente. Era perigoso.
	Marisa...
Ela encostou um dedo nos lbios dele. Compreendia que ele no estava pronto para encarar os prprios sentimentos. Em compensao, tambm no podia neg-los.
	Sem desculpas nem arrependimentos  sentenciou, sem deixar de fit-lo.  Aconteceu. Duas vezes. E foi maravilhoso a cada vez. Isso no significa que
precisa casar comigo. Nem que esteja sendo infiel.
Percebeu que ele enrijecera a postura.
	Por que est dizendo isso?
	Porque voc  o tipo de sujeito que o Sargento aprovaria. Um homem que doa seu corao apenas uma vez e acredita que jamais acontecer de novo. Sua me me falou um pouco sobre voc  continuou ela, sabendo que enveredava por um rumo perigoso.
	Foi mesmo?
	Foi.
Nada sobre Roberta o espantaria, naquele dia. Talvez fizesse parte da nova personalidade, o que significava que seria bom ele tomar cuidado.
	O que exatamente ela contou?
	A verdade. Que voc no saiu com ningum desde... que Andrea nasceu.
Roberta no tinha o menor direito de comear a interferir em sua vida, depois de ficar distante por tantos anos. Estreitou os olhos, desconfiado.
	E como sabe que ela disse a verdade?
	Porque voc no beija como um homem que vive saindo por a, e...
	E voc  uma especialista no assunto?
	Eu tambm l no sa com ningum desde que Christopher nasceu  confessou, ignorando o sarcasmo de Alec.  A princpio, imaginei que era porque estava grvida, depois achei que no fazia sentido.
	Sentido?
	Eu no pretendia me envolver com ningum, portanto para que sair? No era como na poca em que eu tinha tempo  vontade.
A conversa o estava tornando nervoso, tanto o beijo quanto o que discutiam. Pois ele no era o nico. A diferena  que a ansiedade de Marisa estava relacionada mais com antecipao e a dele era resultado do medo de envolver-se. Podia perceber aquilo nos olhos verdes e srios.
O momento precisava ser ultrapassado. Marisa afastou-se dele. Com as duas crianas em cima tirando uma soneca, possua tempo para si mesma e isso significava trabalhar em sua tese. At j se esquecera como era ler um livro que no contivesse filosofia ou ilustraes de animais para crianas.
	Muito bem, onde est?  quis saber ela.
	Onde est o qu?
Ele imaginou que se aquilo continuasse, poderia levar a ambos na direo de novos problemas, e isso era a ltima coisa que desejava naquele instante. No queria importar-se com outra pessoa alm de Andrea. No queria a dor que vinha junto com o gostar.
A comida chinesa. Voc me prometeu um suborno, lembra?  insistiu ela. Depois sorriu.  Voc esqueceu, no foi?
Ele esquecera mesmo. Depois de quatro horas e meia no restaurante, comida fora a ltima coisa em sua cabea ao voltar para casa.
	Completamente. Sou culpado.
	No faz mal. Um de ns dois estava arriscado a ler um biscoito da sorte com uma sugesto obscena.
	Mas eu trouxe alguma coisa.
Ela voltou-se, surpresa. O que ele poderia ter trazido?
Alec percebeu imediatamente o interesse dela, fazendo-o imaginar como ela teria sido quando menina. Perguntou-se se os pais dela a teriam amado como ele amava Andrea.
	Est no carro  anunciou, dirigindo-se para l. Ao perceber que ela o acompanhava, parou.  No, voc fica aqui. Acho que vai demorar um pouco. Por que no faz alguma coisa enquanto isso?
	Quer que eu comece o jantar?
	No, ainda estou devendo o jantar. Comida chinesa, lembra? Faa outra coisa.
	Est fazendo um mistrio muito grande disso tudo.
Estava mesmo, e gostava de ver o olhar ansioso nos olhos de Marisa.
	Sei disso.
Ao retirar-se, ela balanou a cabea. Estava ali um homem difcil de entender. Num instante puxava-a contra si, no outro tentava colocar limites. Com certeza era diferente de Antnio. Procurava colocar em palavras o que gostava e o que no gostava. At ento no existira surpresa alguma. Desde o incio soubera como seriam as coisas. S que de alguma forma esperava que o beijo tivesse alterado tudo isso. Que o amor mudasse a forma de ser dele.
Pessoas no mudavam nem eram reformadas como roupas, lembrou. Aprendera aquela lio tarde demais.
	Tem certeza de que no posso ajudar?
	Pode  respondeu ele, parando  porta.  Indo l para dentro e no atrapalhando.
Ele despertara a curiosidade, alm de algo mais dentro dela. S esperava que a atrao entre eles fosse uma boa coisa. Imaginou que estivesse atravessando uma espcie de coma emocional, seno a morte dos sentimentos. Ele a fizera descobrir ser capaz de sentir outra vez. Era uma boa coisa para se descobrir depois de tantos meses.
Alec levou menos tempo do que calculara. Montar o velho computador s levara alguns minutos. O que presumira que levaria mais tempo seria atualizar a unidade com o chip que comprara a caminho de casa.
Mesmo isso foi rpido, inclusive a instalao da tela especial de trabalho que ele desenvolvera especialmente para Marisa, usando tempo vago no escritrio, durante os ltimos dias. Vinte minutos mais tarde foi procur-la, ansioso para ver a alegria estampada no rosto quando deparasse com o computador que era um presente. Rex ia ver-se livre dele de qualquer forma, pois o equipamento totalmente novo j havia chegado, agora apoiado pelo capital de Maxwell.
Encontrou Marisa na sala. Estava deitada de bruos no cho, tentando recuperar um pequeno animal empalhado que se enfiara embaixo do sof. Por um instante, Alec ficou observando sem dizer nada, enquanto ela se contorcia, tentando entrar no espao entre a parede e o encosto estofado do grande mvel.
Agachou-se atrs dela.
	Se est tentando se enfiar a atrs, garanto que no tem espao.
	Engraadinho  respondeu ela, depois de um sobressalto.  No sei como Andrea conseguiu jogar esse coelhinho aqui embaixo. Estou tentando tirar para ela.
	Deixe a. Ela nem vai dar por falta. Tem dezenas de brinquedos. Se ela fizer questo, eu compro outro.
Devia ser gostoso no ter de se preocupar com dinheiro, pensou ela. Nunca chegara a esse ponto.
	Est bem  concordou ela, tentando voltar de marcha a r. No era fcil, pois no tinha espao para manobrar.  Se importa de me puxar?
	Que parte quer que eu puxe?  indagou ele, correndo os olhos pelo corpo dela.
	Acho que  melhor puxar o outro brao. Tenho a impresso de que fiquei entalada.
Alec percebeu que ela falava a srio.
	Pode deixar que eu tiro voc  anunciou, tentando empurrar o grande sof de quatro lugares para a frente.
Percebeu que sozinho jamais iria conseguir mover a pesada pea estofada de madeira macia.
	Acho melhor tentar de outro jeito. Se doer, avise. Passando os braos ao redor da cintura dela Alec
puxou, a princpio devagar, depois com fora.
O ltimo esforo produziu efeito. O ar foi expulso dos pulmes de Marisa ao aterrissar sobre o corpo dele, numa confuso de braos e pernas. No foi nada desagradvel, pensou ele deslizando as mos pelos flancos dela. O corpo nessa posio ficava inteiramente colado ao dele, provocando uma resposta que Alec no sentia h muito tempo.
Sorriu diante do rosto dela, retirando com delicadeza os fios de cabelo sobre a testa. Por um instante a tentao quase venceu, com os dedos tocando de leve a pele macia do rosto. Teria sido fcil demais.
	Acho que  melhor a gente no comear nada que no possa acabar.
	Certo  murmurou ela.  Pelo menos at que os dois possam acabar.
Com um suspiro, Marisa ergueu-se. Primeiro ajoelhou-se, depois levantou o corpo, sentindo uma verdadeira teia de sensaes fortes, como um emaranhado de impulsos eltricos. Alec imaginou a prpria Vnus sobre ele, depois afastando-se de um idiota incapaz de lidar com os prprios sentimentos, aproveitando a oportunidade.
Mesmo que ele fosse aquele tipo de homem, ela no era aquele tipo de mulher. Sabia instintivamente disso.
Marisa olhava para o brao arranhado.
	Obrigada pelo salvamento.
	Voc fez esse machucado agora?  quis saber ele, tomando o brao machucado entre as mos.
	Vou sobreviver  ela comentou, tentando retirar o brao.
Alec conduziu-a at o banheiro e abriu o armrio de remdios, onde ficava o equipamento para primeiros socorros.
	E melhor a gente fazer um curativo nisso. Estenda o brao.
	Voc anda assistindo a muitos seriados mdicos, isso sim.
	Esse tipo de coisa  melhor prevenir do que remediar  disse ele, repetindo uma frase que escutara inmeras vezes de Roberta.  Uma bab com um brao s deixa muito a desejar.
	E verdade  concordou ela, apertando os lbios com o ardor do anti-sptico.  Voc tem mo boa para isso.
	J me disseram. Est melhor?
	Sim, obrigada.
	De nada. Agora que est inteira outra vez, quer ver o que eu trouxe?  indagou ele, feliz por t-la ajudado.
Ela pousou a mo sobre a dele.
	Quero.
Ainda no tinha a menor idia do que Alec poderia ter trazido para ela, mas fosse o que fosse, estava disposta a adorar.
Ele a conduziu at o quarto de hspedes, onde ficava sua antiga escrivaninha. Pretendia ligar para o Exrcito da Salvao, doando-a, e ficou contente por no t-lo feito. Foi perfeita para acomodar o computador e perifricos.
	A est  anunciou ele, como um apresentador de circo.
No tinha a mesma aparncia do computador pessoal dele, mas ela vira o equipamento de passagem, apenas uma vez.
	Voc montou seu computador para mim no quarto de hspedes?
	No  o meu computador. E o seu computador.
	Meu?  repetiu ela, aproximando-se da escrivaninha. Ainda no sabia o que pensar.
	Ligue  pediu ele, indicando o interruptor de fora.
Maravilhada, ela assistiu  iniciao dos programas, que ao final reproduziram na tela uma fotografia de Christopher. Lentamente o rosto infantil se transformou no dela. Chocada, Marisa olhou para Alec.
	S um truque simples  comentou ele, sorrindo.
	No estou entendendo. Voc est me emprestando um computador?
	No. Estou dando um de presente para voc. Por mais que ela desejasse um, aquilo ficava fora
de questo.
	No posso aceitar uma coisa cara como esta.
	Pode ter sido cara um dia, mas esse  s um computador antigo do escritrio. Estava desligado e guardado num canto porque ningum usava mais. Recebemos equipamento moderno h cerca de um ms, os ltimos modelos do mercado. Esse ficou lento e obsoleto para ns, mas acho que para voc vai servir
perfeitamente  explicou ele.
Os olhos dela se arregalaram como uma criana diante da rvore de Natal. Alec imaginou que jamais seria capaz de esquecer a expresso no rosto dela.
	E voc vai d-lo para mim?
	J dei.
Ela ainda no conseguia acreditar que ele tivera todo aquele trabalho s por sua causa. No se lembrava de algo parecido em sua vida. De algum ter preparado alguma coisa s para ela.
	Vou usar para terminar, minha tese.
	E para qualquer outra coisa que precise. E seu, Marisa.
O olhar ainda no demonstrava compreenso total. Ele puxou a cadeira, convidando-a a sentar-se.
	Nunca ningum deu um presente a voc antes?
	No  murmurou ela, erguendo os olhos azuis e midos para ele.  No sei o que dizer, Alec.
	Ento no diga nada  respondeu, pouco  vontade. Afinal, era s um computador velho.  Mas  bom ir usando, porque preciso sair para comprar comida chinesa.
Marisa olhou para a tela e observou o rosto do filho transformando-se no seu. Ele montara aquilo para ela, usando tempo de seu horrio lotado. Apenas para agrad-la. Nenhuma palavra que pudesse dizer iria traduzir o que sentia.
	Alec?
	Sim?  murmurou ele, j perto da porta.
	Obrigada.
Alec no respondeu. Acenou para os olhos midos que o desconcertavam e saiu logo. A gratido dela o perturbara mais do que o beijo.
Captulo X
 Alec, voc precisa vir no sbado  festa em minha casa! Alec franziu a testa enquanto recolocava o telefone no ombro. Ter de sair com o cliente no domingo de manh era uma coisa, mas passar uma noite inteira num compromisso social quando ele preferia estar em casa era outra bem diferente.
	Rex, preciso criar programas que vendam bem e assim permitir que o pblico gaste seu dinheiro suado e pea mais. Posso ajudar a construir uma boa reputao tcnica para a companhia, pela qualidade dos programas. Isso no inclui comparecer a uma festinha.
	Inclui quando a festinha  para Maxwell. O que pensa que ele vai dizer se meu diretor criao no estiver l?
I Atrs dele, na cozinha, escutava Marisa incentivando uma das crianas a comer. Seu jantar estava esfriando. No tinha a menor vontade de entabular aquela conversa, especialmente porque estava fadado a perder.
+ Quase dez anos de experincia, dois diplomas, e de repente viro o diretor criao? Que novidade  essa? Rex riu antes de responder.
	 assim que Maxwell chama voc, e se  bom o suficiente para ele...  disse, deixando a frase em suspenso.  Vamos l, Alec. Voc pode vir disfarado se quiser. A festa  a fantasia.
	Isso est ficando cada vez mais difcil...
	E se voc no tiver ningum para acompanh-lo, Myra tem essa amiga...
Alec fechou os olhos. Um monte de marmanjos vestindo roupas de crianas e ainda por cima um encontro cego. Detestava compromissos sociais com mais de trs pessoas, todos desejando que ele ficasse " vontade". Por que ser que as pessoas casadas eram obcecadas para arranjar parceiros para os amigos solteiros?
De qualquer forma, no queria correr o risco de sentar ao lado de uma amiga de Myra durante o jantar. Ou pior ainda, ter de acompanh-la a noite inteira.
	Agora tambm preciso levar algum?
	No est escutando, homem? Estava justamente dizendo que Myra tem essa amiga...
Alec j vira algumas amigas da esposa de Rex.
	No, obrigado. Eu levo algum.
	timo. Nesse caso vou avisar Myra que voc vem.  esse sbado, s oito em ponto. No se atrase.
	 melhor rezar para que minha fantasia no tenha uma espada, ou algo parecido. At l  despediu-se ele com um suspiro profundo.
	Algum problema?  quis saber Marisa quando ele voltou para a cozinha.
Andrea preferia suas cenouras rolando pelo cho do que no prato. Enfim, nada de grave.
	No... quer dizer, sim  respondeu, olhando para seu lugar vazio  mesa.
Ser que ela j tirara a mesa? No chegara nem  metade do prato.
	Qual dos dois?
	Rex quer que eu v a uma festa a fantasia no sbado  explicou, olhando ao redor.  Marisa, onde est minha comida?
	Aqui. Eu no sabia quanto tempo podia demorar sua conversa, portanto achei melhor deixar a comida quente  disse ela, apanhando o prato no forno de microondas.  Deve ser tima. A festa, quero dizer.
	Gosta de festas?  estranhou ele, acomodando-se  frente do prato.
Ela sentou-se entre as duas cadeiras altas, de forma a poder atender s duas crianas.
	J faz muito tempo que no vou a uma. Se a memria no me falha, acho que gosto, sim  declarou ela. Depois olhou para o filho.  S um pouquinho mais, meu bem.
A mo gorda de Christopher segurou forte a colher e os lbios fecharam-se em torno da comida.
Marisa consultou seu relgio. Faltavam quarenta minutos para o incio de sua aula. S teria tempo de alimentar os dois, comer alguma coisa, arrumar os pratos na lavadora e sair. O horrio vinha se tornando rgido na ltima semana. Tinha inteno de deixar folgas para os imprevistos, mas simplesmente no havia espao disponvel na agenda. Depois de um ms de estadia, as coisas haviam se acomodado numa rotina rpida. A mgica que sentira entre ambos ainda existia, porm ele fazia o melhor possvel para ignorar o episdio e ela achava que no seria elegante lembr-lo.
Apesar disso no podia queixar-se. A vida era melhor para ela do que em qualquer outro perodo, com todas as possibilidades maravilhosas acenando no horizonte, prometendo dias melhores. Tiraria seu diploma em um ms. Aquilo lhe abriria vrias novas portas.
Tinha de contentar-se com isso.
Era um verbo que conhecia muito bem. Mas agora que o objetivo estava  mo, sentia-se vazia de certa forma. Queria mais. Mais alguma coisa.
Talvez o problema fosse exatamente esse, pensou. O de querer sempre alguma coisa que no pudesse conseguir. E aquele desejo secreto e insatisfeito no poderia conviver com ela durante muito tempo. S poderia desejar o que ele admitia para si mesmo.
Alec comia com gosto o prato quente e saboroso, porm sua cabea tambm no estava no prazer gastronmico. Depois de ter resolvido no iniciar uma situao com a qual sentia-se incapaz de lidar, no parecia capaz de imprimir o mesmo controle  sua mente. Quanto mais tentasse no pensar em Marisa menos sucesso tinha. Alm do mais sempre a via pela casa, em todos os horrios, alm de acompanh-la  aula que freqentavam juntos quando possvel. Mesmo quando ela no estava em casa, a fragrncia que usava permanecia no ambiente.
Alec sabia que precisava escolher as palavras com cuidado, pois tratava-se apenas de uma defesa contra as amigas de Myra. No pretendia complicar mais sua vida, deixando que ela alimentasse iluses.
	Rex pediu que eu levasse algum.
	Uma acompanhante?  indagou ela.
Ela j se convencera de que o beijo no significara nada para ele, portanto no havia motivo para que seu corao se acelerasse daquela forma.
	. Na verdade, chegou a me ameaar. Disse que Myra levaria vrias amigas solteiras.
Um sorriso divertido curvou os lbios de Marisa.
	E isso  uma ameaa?
	O que voc acha sobre encontros cegos?
	No sei. Nunca tive um encontro cego. Deve ser estranho, eu imagino. Um risco, no mnimo.
	Marisa, voc nunca foi a um encontro cego, combinado por um amigo ou coisa parecida?
	No. Eu sempre conhecia as pessoas com quem eu sa. Ou pelo menos achava que conhecia at sair.
Por que ser que ele estranhava tanto?
	Pode acreditar,  uma das piores coisas da vida  advertiu Alec.  Voc passa o tempo todo usando sentenas curtas e sem significado, depois comea a olhar para o relgio, esperando que o ponteiro dos minutos crie asas ao invs de ficar colado no mesmo lugar.
	Parece ruim, mesmo  concordou ela, sorrindo.
	E   disse Alec, reclinando-se para observ-la. Marisa alimentava os dois enquanto conversava
com ele, alternando as colheradas. Apesar de todas as atividades que cumpria durante o dia, ela conseguia fazer com que a casa funcionasse muito melhor do que qualquer outra pessoa que tivesse ocupado sua posio antes.
A vida era melhor e mais tranqila para ele, at mesmo confortvel. Talvez confortvel demais. Apesar de tudo sempre havia aquela sensao que aguardava, fora de alcance, para penetrar em sua mente assim que ele permitisse. Era algo que o assustava.
Levou o prato at a pia, usando a faca para colocar os restos na lata de lixo.
	Marisa, gostaria de ajudar a salvar minha pele? Apesar do convite, ela no pretendia depositar suas
esperanas no interesse dele, que no mais mencionara o ocorrido entre os dois.
	Quer que eu telefone a esse tal de Rex e diga que voc quebrou a perna ou algo parecido?
	Seria uma possibilidade vivel, se eu no trabalhasse com ele todos os dias. Ele iria acabar descobrindo. Estava pensando mais em que voc viesse como minha acompanhante.
	A uma festa?
	Uma festa a fantasia  gemeu ele.
No compreendeu como ele detestava tanto a idia quando ela mesma no conseguia pensar em algo mais excitante. Na verdade, podia, mas no enquanto Alec tentava afastar-se com tanto empenho. Ficara com a impresso de que ele lhe dera o computador como premio de consolao.
Ao que parecia, ele abria a porta outra vez. Ser que mudara de idia? Reconhecera as prprias necessidades?
	Gostaria muito de ir. J pensou qual a fantasia que vai usar?
	Pensei em ir fantasiado de programador de computadores.
	Mas voc  um programador de computadores  protestou Marisa, sorrindo.
	Sei disso. Mas simplifica a tarefa de encontrar uma fantasia  respondeu ele, sem inteno de perder tempo escolhendo uma roupa adequada.
	Pode deixar comigo. Eu tomo conta de tudo. Agora, preciso ir porque estou atrasada. Os dois j esto banhados e alimentados. s sete e meia precisam ir para a cama. Vejo voc depois.
E saiu.
Alec pensou que acabara de cometer um erro enquanto retirava os bebs das cadeiras. Ficou com um de cada lado nos braos.
Por que ento se sentia to bem?
	Pirata?  disse ele, olhando para a caixa aberta no sof.  Quer que eu v fantasiado de pirata?
Precisara ir ao trabalho por meio perodo naquele dia. Meio perodo que se tornara mais longo do que um perodo inteiro. Estava pronto a esquecer o assunto da festa quando chegou em casa, porm Marisa estava to animada que nem teve coragem de mencionar essa hiptese.
	No  uma fantasia de pirata. Voc no olhou direito  ralhou Marisa.   de cigano. Prncipe dos Ciganos, se quer saber.
Como se o nome alterasse as cores e o corte da fantasia, pensou ele, examinando o contedo da caixa.
	No est querendo que eu use uma coroa, ou algo parecido, est?
	S se voc quiser.  Ela riu.
	Eu nem ao menos quero ir a essa festa  respondeu ele, erguendo a camisa, cujas mangas eram grandes o suficiente para esconder a filha no interior.  No vejo porque...
Alec parou de falar quando ela entrou no aposento. Parecia mesmo uma cigana. Uma rainha cigana. Os quadris estreitos estavam adornados por uma saia com panos multicoloridos e a blusa branca deixava os ombros arredondados de fora. O conjunto era uma verdadeira tentao.
	Voc no v porque...  disse ela, divertida com o efeito que provocara.
	No sei o que ia dizer... esqueci  admitiu ele. Caminhou ao redor dela lentamente, absorvendo os
olhos com a viso de Marisa. Uma mirade de pulseiras e braceletes metlicos tilintava ao redor dos pulsos a qualquer movimento, combinando com os sininhos no tornozelo direito.
	Voc est linda  balbuciou ele.
Marisa corou de prazer com o elogio. Os olhos assumiram ares misteriosos e o indicador de uma das mos coou a palma da outra.
	D uma moeda de ouro para a cigana, e ela l seu destino.
Ele j sabia o que o futuro reservava para ele. Se tivesse coragem, claro.
	E melhor colocar minha fantasia  murmurou ele, apanhando a caixa.
	E eu vou colocar as crianas na cama.
	Acho que todos vo gostar da sua roupa. Eu, pelo menos, adorei.
	V se vestir logo, seno a gente vai chegar atrasado.
	Seria uma pena, no seria?  comentou Alec, saindo.
Rex jogara todas as suas cartadas. Chegara a contratar manobristas uniformizados para a festa. Os profissionais atendiam eficientemente a todos os carros que chegavam.
	Quantas pessoas vm  essa festa?  resmungou Alec, saindo do carro quando um dos empregados lhe abriu a porta.
Entregou as chaves para o homem e juntou-se a Marisa, que era admirada pelo outro manobrista. No se podia culpar o homem, pensou. Tomou o brao dela e encaminharam-se para a entrada.
	Ainda no estou entendendo. Como voc conseguiu que Roberta ficasse com as crianas?
	O mrito no foi meu  protestou Marisa.  A idia foi inteiramente dela. Eu pretendia chamar Jane para ficar com eles, e tudo o que fiz foi mencionar o assunto quando ela ligou  tarde. O resto veio sozinho.
Ele jamais imaginaria que a me ficasse com dois bebs num sbado  noite.
	No  problema meu. Vou comear a procurar alguma semente aliengena no poro da casa dela. Aquela mulher que foi at minha casa no era Roberta. E ainda se ofereceu para tomar conta da neta. No  possvel!
A diferena que vinha notando ultimamente parecia ter tomado conta da me. Tornando-a mais humana, como se tivesse percebido de repente que deixara passar muita coisa durante todos aqueles anos. Que outra explicao existia para aquele interesse sbito em sua vida?
	No existem pores no sul da Califrnia  observou Marisa.
	Isso s mostra como esses aliengenas so cheios de truques  disse ele, tocando a campainha.
Ao realizar esse gesto seu brao roou os seios macios de Marisa. O contato foi eletrizante, acendendo uma centelha de desejo em ambos. Tornaram-se conscientes da proximidade dos corpos.
	Desculpe.
	Tudo bem, no foi intencional  disse ela.
Um Robin Hood um tanto obeso abriu a porta, encerrando o assunto. Rex ergueu a mscara verde para enxergar melhor. Reconheceu Alec imediatamente, embora o esperasse num terno convencional.
	Alec?
Se o rosto de Rex sorrisse um pouco mais corria o risco de dividir-se ao meio. Msica, risos e conversas elevaram-se do salo por trs dele.
	Sou eu, sim. No precisa rir.
Mas o patro j voltava sua ateno para a cigana que o acompanhava, beijando-lhe a mo de acordo com o costume de sua poca.
	Essa ?
	Marisa. Marisa Rogers, Rex Wellington  apresentou Alec, passando o brao pelos ombros dela, num gesto possessivo.  Scio da Bytes & Pieces. Ex-amigo.
	Ouvi falar muito de voc  disse ela, sorrindo.
	Pois eu no ouvi absolutamente nada a seu respeito, o que nos deixa em desigualdade  respondeu Rex.  De onde veio essa criatura maravilhosa, Alec?
	Sou a bab  explicou ela com simplicidade.
	Myra, precisamos arrumar um filho ou dois! Venha at aqui.
Marisa riu.
	No encoraje esse homem  alertou Alec.  Segure seu charme, porque Myra  uma mulher muito ciumenta, embora o marido nunca d motivo.
	Venha, vou apresentar voc aos outros convidados.
	Eu j conheo todos  protestou Alec.
	Eu no estava falando com voc  afirmou Rex, oferecendo o brao a Marisa.  Ento, h quanto tempo  bab?
Alec seguiu atrs dos dois, sentindo uma velha sensao no peito. Ainda que no fosse do tipo ciumento, ele sentia a pontada territorial quando Marisa era conduzida pelos outros. Com o patro era pior ainda.
No existia um s motivo para que ele sentisse qualquer ameaa, pois Rex era bem casado e feliz no casamento.
Apanhou uma taa de vinho da bandeja que passava levada pelo garom e resignou-se a fazer o melhor possvel para divertir-se.
Ele no deveria opinar na vida dela, pensou Alec, meia hora depois. Observ-la no centro de um crculo de homens, rindo do que algum deles dizia, no era uma situao agradvel.
J suportara o suficiente.
Depositou seu copo de vinho na bandeja mais prxima e pediu licena para a mulher que estivera conversando com ele. Pelo menos era apenas uma mulher no identificada, vestida de coelho cor-de-rosa. A voz que vinha da cabea do coelho ficava abafada e ele no estava prestando ateno.
Estivera ocupado, reparando em Marisa. Dizendo a si mesmo que no se importava com quantos homens estivessem conversando com ela. Mesmo que fosse mentira.
Chegando por trs dela, ele vibrou-lhe um tapinha no ombro. Seria sua imaginao, ou o decote baixara um pouco desde o incio da festa?
	Quer danar?
	Eu adoraria  ela respondeu, sem a menor hesitao.
	Ento por que ns dois no...  comeou a dizer um homem fantasiado de xeique rabe.
	Ela est comigo  interrompeu Alec, ficando entre os dois e arrastando a companheira dali.
	Voc devia se portar como um prncipe cigano, no como um homem das cavernas  reclamou ela, assim que se distanciaram.
Alec no respondeu at que estivessem na pista de danas e Marisa se aninhasse em seus braos.
	Voc acha que eu fui mal educado?
	Bem, a princpio eu pensei que voc fosse me arrastar mesmo pelos cabelos  comentou ela.  No precisava, sabia? Eu tinha toda a inteno de danar com voc. Alis, desde o comeo da festa estava esperando que voc me convidasse.
O aroma de flores silvestres comeou a encher a cabea de Alec, aliado  proximidade do corpo dela, tudo conspirando para aumentar a tontura que o impedia de raciocinar direito.
	Voc parecia estar se divertindo muito  comentou ele.
	Estou mesmo. Agora.
	Voc parecia estar se divertindo mais antes. Ela olhou por sobre o ombro, sentindo-se um pouco
como Cinderela num baile.
	Seus amigos so simpticos. Gostei deles. Alec encolheu os ombros.
	So. O que ele estava dizendo para voc? O Joe? Voc ria tanto.
	Era s uma piada boba  respondeu ela, encarando-o.  Alec, voc por acaso est com cimes?
	Por que eu estaria com cimes dele?  perguntou, desviando os olhos.
	No sei, mas tive a impresso que voc pareceu chateado porque eu estava no meio dos outros homens.
	Talvez porque eu tenha trazido voc  festa  admitiu, enrijecendo.  Pensei que ficaria comigo em vez de... desculpe. Acho que estou me portando como um adolescente, Marisa.
	J passou. De certa forma,  bonito.
	Acontece que no consigo pensar direito quando estou perto de voc  ele confessou.
	Tenho um segredo para voc. No  o nico.
	E o que vamos fazer a esse respeito?  quis saber ele, apertando-a em seus braos.
	Acho bom a gente caminhar um passo de cada vez. E tudo o que podemos fazer.
Mas no era. Ele ainda podia negar. No seria muito difcil.
	Suponha que eu no queira dar todos os passos, um de cada vez? Vamos supor que j saiba onde vamos terminar e no queira chegar l.
Ela sabia que Alec no estava se referindo a apaixonar-se. Estava se referindo s conseqncias. As que tivera de sofrer por amar sua primeira esposa. Porm no precisava ser daquela maneira. A histria no se repetiria.
	A coisa mais interessante sobre uma estrada, Alec,  que pode ser alargada, ampliada, redirecionada ou ajustada. Voc nunca sabe onde realmente vai, at chegar l.
 Voc est mesmo levando a srio o papel de cigana, no?
 Pode considerar essa uma previso por conta da casa  murmurou ela, apoiando o rosto contra o ombro dele.
Seja o que for que tenha acontecido no passado, Marisa pretendia aproveitar aqueles momentos.
Captulo XI
Foi uma festa maravilhosa, no foi?  comentou Marisa, entrando na sala de estar.
Tinha ido at o quarto, verificar os dois bebs, que continuavam adormecidos. Resolvera deixar que Christopher dormisse no quarto com Andrea em vez de lev-lo para os fundos. Havia uma bab eletrnica que os alertaria, caso um dos dois acordasse.
Roberta partira assim que o casal chegara em casa, declarando-se "cansada demais para falar". Para todos os efeitos, estavam sozinhos. J era tarde, mas Alec no se recolhera ao seu quarto. No conseguia tirar os olhos da figura fantasiada de Marisa, caminhando pela sala com as saias coloridas a balanar de forma sensual.
	Foi mesmo.
	Acho que voc se divertiu de verdade  disse ela, surpresa e contente por ele ter apreciado a noite em sua companhia.  O que aconteceu com o prncipe cigano rabugento?
	Ele deixou de ser rabugento. Talvez tenha ficado um pouco tonto.
Com apenas um copo de vinho?, pensou ela, recordando que s o vira tomar uma taa.
	Eu no estava falando sobre lcool  afirmou ele, encarando-a.
Colocou as mos nos ombros dela.
	No?  gemeu ela, sentindo o carinho da ponta dos dedos na orelha.
	No. Voc produz um efeito diferente em mim, Marisa. Causa sensaes agradveis, mas no estou certo de gostar.
	Por qu?  indagou ela, sentindo uma onda de emoo.
	Porque se eu fraquejar, vou sentir tudo outra vez.
Sabia que no devia envolv-la em seus braos daquela forma, pois s estava piorando a situao. O que sentia por ela o assustava e o atraa ao mesmo tempo.
	E isso  uma coisa assim to ruim? Sentir emoes?  quis saber ela, erguendo os olhos azuis para ele.
	Para mim,   admitiu, percebendo que o desejo aumentava.  No tenho inteno de magoar voc, Marisa.
	Por que est dizendo isso? Voc no vai me magoar.
Ela beijou o polegar que lhe acariciava o rosto. Parecia to confiante. Isso porque no experimentara, como ele, a sensao de um amor terminado pela metade, enquanto desabrochava. Quando o casamento dela terminou, o amor j estava morrendo. No fora arrancado sem aviso.
	Vou, sim. Porque no posso dar a voc o que quer. Uma famlia. Um lar. Estabilidade.
Alec sabia o tipo de mulher que ela era, no por julgar, mas simplesmente observando e ouvindo. Marisa jamais exigira nada dele, mas tinha necessidades que ele no podia preencher.
	No estou entendendo  disse ela, olhando ao redor.  Voc no pode dividir isso tudo comigo?
	No posso dividir a mim mesmo  explicou ele, detestando o olhar magoado dela.. Sou um covarde, Marisa, j estive l uma vez. No inferno. Tudo o que consegui fazer foi achar o caminho de volta. Se no fosse pela existncia de Andrea eu no teria conseguido. A verdade  que no quero ir para o inferno outra vez. Tenho medo porque sei o que me espera.
Com que direito ele declarava morto o que existia entre ambos mesmo antes de acontecer?
	Ningum est mandando voc para o inferno, Alec.
Cristina tambm no esperara morrer. Mas as coisas aconteciam. E deixavam estilhaos capazes de envenenar um corao.
	Mas est l. Esperando por mim. Se...
	Se eu morrer?  completou ela, controlando as lgrimas que lhe chegavam aos olhos.  No contei para voc como as pessoas morrem tarde na minha famlia? Tenho uma tia-av com quase cem anos, e vrios parentes com mais de oitenta. Voc no pode pensar na vida com medo de morrer. A morte vai acontecer a todos ns, mais cedo ou mais tarde. O que importa  o que fazemos antes disso, Alec. Prefiro ter um pouco de alguma coisa boa do que uma eternidade de nada  concluiu, suspirando e procurando enxergar a reao dele.  Ser que isso faz sentido para voc?
Ele tomou-lhe a mo entre as suas, acreditando que Marisa era uma mulher maravilhosa e merecia muito mais do que ele poderia dar. Merecia algum que a pudesse amar incondicionalmente, sem medo. E esse algum no seria ele.
	Quando eu uso a lgica, faz. Mas emocionalmente...
	Eu no estou pedindo que se comprometa  disse ela, mordendo os lbios.
	Seus lbios no pedem, mas seus olhos, sim  respondeu ele, encarando-a.  Voc no  o tipo de mulher que se satisfaria com um caso passageiro.
	Pois experimente  convidou, mergulhando os olhos nos dele.
Alec desejou que ela parasse de testar sua fora de vontade. Um homem tinha limites.
	No vou fazer isso com voc, Marisa.
	Meu Deus, como voc  nobre  desabafou ela, recuando. Atirara-se em cima dele e ele a deixava cair no cho, sem apoio.  Bem, vou dormir, porque meu dia comea cedo amanh.
Precisava de uma desculpa antes que desatasse a chorar. Sair rpido para seu quarto. Alec percebeu que a magoara por recusar o que ela generosamente oferecia.
	Marisa?
Se ele pretendia dizer que assim seria melhor, ela era capaz de perder a calma. J era difcil suportar a rejeio sem conselhos paternais. E alm do mais, ele no sabia o que dizia. Era bom o suficiente para ela.
Mal teve tempo de virar-se antes que Alec a tomasse nos braos e a boca ansiosa cobrisse a sua. A paixo que ele tentava negar com tanto afinco acabara explodindo em sentimentos, apesar das palavras trocadas.
Marisa tinha o gosto das lgrimas. Ele era o responsvel. Seria apenas o incio. Sabia disso, mas era incapaz de controlar a si mesmo. Agora no era mais possvel.
Marisa passou os braos ao redor do pescoo dele como se toda a vida em seu corpo dependesse disso.
A boca mscula traava um caminho em seu rosto enquanto Alec puxava a ponta da blusa do cinturo colorido. Queria tocar a pele dela, estar com ela num momento de intimidade. Tudo o que dissera a Marisa continuava sendo verdadeiro, porm a necessidade dela era grande demais.
O sangue pulsou em suas tmporas quando as mos alisaram a curva da cintura, pressionando o corpo ansioso contra o seu. Os lbios caminharam at o colo macio, depois de volta at a boca, que gemia baixinho. As sensaes multiplicaram-se, elevando o envolvimento fsico.
Marisa sentiu que as defesas dele estavam por terra. Ainda que a durao da abertura tivesse representado um instante fugaz no tempo, foi o suficiente. Soube que nesse pequeno intervalo ele partilhara tudo com ela. Bastava descobrir o caminho de entrada para aquele corao magoado.
Um choro breve de criana.    
Marisa sentiu o corao pesado com aquele som. Significava que seriam obrigados a controlar sua paixo em detrimento de um assunto mais urgente. Acreditava que se parassem naquele momento dificilmente teria outra oportunidade para faz-lo compreender o quanto precisavam um do outro.
	Algum est chorando  murmurou ela, ofegante contra o peito de Alec.
	O seu ou a minha?
No estado em que se encontrava, ele no conseguia distinguir entre o choro das duas crianas. Seria necessrio um esforo sobre-humano para afastar-se do corpo quente de Marisa, mas no tinha alternativa.
	A sua.  melhor ir ver qual  o problema.
	Claro  concordou ele, tentando controlar-se. Assim que ela saiu da sala, Alec sentou-se no sof,
colocando as mos no rosto. Respirou fundo, absorvendo as implicaes do que quase concretizara. Se Andrea no tivesse chorado ele teria feito amor com Marisa na sala como um animal egosta e sem controle.
Apenas para satisfazer suas necessidades fsicas.
No tinha nada a oferecer para aquela mulher. Nada. Sentia-se vazio por dentro. O amor que restara pertencia a Andrea. O tipo de sentimento que um homem sente por uma mulher, esse no estava ali.
E ela merecia mais. Merecia tudo.
Quando Marisa entrou na sala vinte minutos mais tarde, Alec fora para o quarto. Ela sabia que seria assim, embora esperasse o contrrio.
Suspirou e sacudiu a cabea. Talvez estivesse sendo precipitada, oferecendo-se daquela forma. Por outro lado, Alec era o primeiro homem a interess-la depois de Antnio.
Talvez at mesmo o nico por quem realmente sentia alguma coisa. Homens de verdade sabiam os sacrifcios que o amor exige, que pede em algumas oportunidades. E Alec havia oferecido seu corao para uma mulher que no se encontrava mais entre eles. Permanecia fiel  sua deciso.
Era preciso respeit-lo por manter a palavra.
Se ao menos ela no percebesse que ele ficava diferente ao lado dela, como se ficasse mais livre. Porm bastava sentir o toque da mo dele na pele para esquecer o reinado da razo.
Novas lgrimas brotaram em seu rosto, borrando a maquiagem pesada de cigana. Apenas enganava a si mesma. No se tratava de uma situao que pudesse se arrastar indefinidamente. De uma forma ou de outra, era preciso resolver aquele assunto.
Marisa retirou-se para o quarto com as lgrimas escorrendo, pois, apesar de otimista, acreditava saber como aquela situao seria resolvida.
Alec mantivera distncia.
No era muito difcil. O trabalho consumiria todo o seu tempo se permitisse. Com a injeo do capital de Maxwell, a companhia se expandia rapidamente e s o fato de manter a agenda atualizada j representava uma vitria. Precisava de um descanso.
Contudo, no havia descanso para ele quando enxergava Marisa pela casa, cantando para as crianas, cozinhando, tomando conta de tudo e dele em todos os detalhes. Sabia que aquilo poderia lev-lo a cometer um erro fatal.
O mesmo que teria cometido se no fosse pela interveno da filha.
Rex apareceu na porta do escritrio. Sempre dizia que ele era uma pessoa de sorte por ter algum como Marisa em casa. Fechando a carranca, entrou e foi apreciar o trabalho no monitor.
	Pessoalmente, acho voc um idiota. Um idiota brilhante, mas mesmo assim um idiota.
Alec esfregou os olhos cansados. Reparou que sua cabea latejava.
	E posso saber a que devo essa manifestao de animosidade pessoal?
	Voc sabe muito bem sobre o que estou falando, Alec. No se faa de desentendido, homem. Tem uma mulher maravilhosa em casa e no faz nada a respeito disso.
	E o que voc prope que eu faa, se no for querer saber demais?
Rex olhou para o teto, como se invocasse algum por testemunha. Depois ergueu as mos para o alto.
	No mnimo, que durma com ela!
	Como sabe que eu j no dormi?  indagou Alec, sabendo que a conversa no levaria a lugar nenhum.
	Porque conheo voc.  to honesto que no acredita em romances de uma s noite  respondeu Rex, com olhar lbrico.  Embora pessoalmente eu ache que ela merea pelo menos um ms todas as noites. Talvez mais.
	Acho que j chega  disse Alec, fechando a expresso.
	Se ela estivesse em minha casa eu certamente ia aproveitar o que a moa tem para oferecer. Por que no voc?
	Acho que j chega, Rex  repetiu Alec, num tom de voz que continha ameaa.
A expresso do patro mudou de sbito, perdendo o ar de conquistador para dar lugar a um rosto divertido.
	E, acho que no resta dvida.
Desistindo de trabalhar, Alec voltou-se para o amigo, estudando-lhe o olhar.
	O que voc est querendo dizer, agora?
	Estava s fazendo uma experincia, e acabei de chegar  concluso que eu queria.
	Que ?  encurtou Alec, sem vontade de adivinhar coisa alguma.
	Voc ama essa mulher.
Por um instante os dois se entreolharam.
	Voc est maluco!
	Eu, no, mas voc est. Se estragar tudo e deixar Marisa ir embora, est maluco. Nas ltimas duas semanas, voc est passando mais tempo aqui do que Joe e eu juntos. E no existe um motivo profissional para isso. Est fugindo.
	Estou trabalhando. No . voc que sempre fica me apressando? No me disse que precisvamos terminar isso tudo...  Alec apontou o material sobre a escrivaninha  ontem?
	Certo, mas correr como uma galinha tonta de um lado para outro e me preocupar  meu trabalho, no seu. Sua parte  dizer-me que no pode ser feito nesse tempo...
Se no estivesse to envolvido na discusso, Alec teria cado na gargalhada com o cinismo do chefe.
	E depois realizar um ou dois milagres. Mas no imediatamente.  preciso respirar um pouco, homem. Gastamos um bom dinheiro colocando uma estao de trabalho em sua casa. Use um pouco.
	Eu tenho feito isso.
	Eu sei. s quartas-feiras, quando ela passa o dia na aula.
	Foi essa a minha combinao com ela  desculpou-se Alec, sabendo que poderia fornecer uma lista completa de motivos sem convencer Rex.
	Voc tambm "combinou" que iria fugir dela o tempo inteiro?
	Voc no sabe o que est dizendo.
Rex girou a cadeira do amigo para encar-lo.
	Sei muito bem. Estou falando com um de meus melhores amigos, para impedir que ele fique vazio como uma concha pelo resto da vida. Para alguns, Alec, o amor no aparece a vida inteira. Para outros, aparece uma vez. Para outros ainda, os que tm sorte, aparece duas vezes durante a vida. Isso  muito raro. Voc conseguiu um bilhete premiado nas mos. Vai receber ou rasgar?
	Pretendo terminar meu trabalho  disse, retirando os pulsos do chefe de sua cadeira e voltando-se para o monitor outra vez.
	Pois est despedido! Pode ir para casa.
Alec no se deu ao trabalho de olhar para trs. Comeou a traar coordenadas na tela. Alterou a forma de seu desenho, e ao corrigir percebeu que inserira dados errados.
	No pode me despedir, Rex. Tenho aes da companhia.
	Muito bem, nesse caso estou tirando voc da ativa e declarando-o doente. V para casa descansar!
	No estou doente.
	Doena mental  vlida nesse caso. E voc est agindo como um dbil mental.
Alec desligou o computador. No conseguiria mais trabalhar naquele dia, de qualquer forma. Sua criatividade parecia ter sado para dar uma volta.
	Voc no vai ficar quieto mesmo, vai?
	No  respondeu o patro, sorrindo. Alec apanhou o telefone.
	Vou chamar Joe para ele vir at aqui colocar uma fita adesiva na sua boca.
	Acho melhor no fazer isso. Joe e eu j conversamos sobre o assunto, e ele tem a mesma opinio que eu. Ns dois vimos vocs juntos, na festa. O jeito que olhavam um para o outro.
	Isso no prova nada  protestou Alec, como um adolescente.
	Voc est negando o problema. No quer aceitar o que todo mundo j sabe  afirmou Rex.  Alis, no tem uma aula para ir com sua filha?
	Agora j passou da hora.
	Alec, v para casa. V para perto da sua filha, v viver sua vida. No deixe a coisa passar para dizer daqui a alguns anos: puxa, esse Rex era mesmo um homem sbio. Eu devia ter escutado quando ele falou.
Cansado demais para protestar, Alec riu.
	Isso nunca iria acontecer. Mas como no agento ficar aqui escutando suas besteiras, vou indo mesmo.
	De um jeito ou de outro, no me importa. Desde que v para casa  afirmou Rex, feliz da vida.
Captulo XII
A
 casa estava quieta quando ele chegou. Quieta demais. Alec olhou ao redor, sem descobrir uma s coisa fora do lugar. Era difcil imaginar que o lugar funcionava como a rea particular de folguedos de dois bebs durante o dia.
O que quer que tivesse acontecido antes, no momento tudo encontrava-se quieto e sossegado na sala. Tudo o que Alec tomava como certo levava a acomodar-se com a situao atual. Marisa estava sempre por trs de tudo isso.
Abriu a geladeira, retirou uma lata de refrigerante da porta e puxou o anel de metal. Assim que o gs foi liberado, tomou um grande gole. Em seguida sentiu um pouco de fome, mas decidiu que estava cansado demais para preparar alguma coisa, portanto ignorou tudo.
Olhou na direo da mesa e deparou com um prato coberto em seu lugar habitual. Como sempre, ela se mantinha um passo  frente dele. Acomodou-se e ergueu a tampa do prato, descobrindo seus pedaos preferidos de frango frito, to gostoso quente quanto frio.
Como ela, pensou enquanto dava a primeira mordida. Sempre aguava seu apetite. Fazendo as tarefas da casa ou servindo de acompanhante para a festa.
Ser que iria continuar pensando em Marisa sem fazer nada a respeito?
Pensou no que Rex dissera. De certa forma, era obrigado a dar razo  argumentao dele. Precisava fazer alguma coisa com seu bilhete. Iria rasgar ou receber o prmio?
Alec no sabia o que fazer. Simplesmente no sabia.
Concentrou-se na comida, ignorando o problema maior em sua vida. No precisava tomar nenhuma deciso naquela noite, mas em compensao no podia adiar por mais tempo.
Como ser que ela conseguia ser to eficiente? Como podia continuar com a vida dela em velocidade total, como se nada estivesse acontecendo quando ele se sentia preso  lama, incapaz de caminhar para a frente? Ser que ela no se incomodava com esse impasse?
Aparentemente, no. Marisa funcionava a pleno. Brilhantemente, enquanto ele mal conseguia realizar suas tarefas habituais. Isso porque o problema era com ele e no com ela. Marisa provavelmente j se decidira. Mas ele, no.
E por que no?, perguntou-se. Fora ele quem estabelecera os termos do contrato entre os dois, portanto no deveria perder o controle sobre o que ele mesmo criara. Escolhera no amar ningum e ela aceitara isso.
Melhor para Marisa, pior para ele.
No momento, o mais recomendado seria dormir. Uma boa noite de sono. Comeou a subir para seu quarto. Estava cansado de vrias formas. Exausto. Ao subir as escadas, depois de apagar as luzes, teve a impresso de escutar algo vinda da cozinha. Talvez Marisa tivesse ouvido alguma coisa pelo monitor do quarto de Andrea e viesse atender.
Voltou para a cozinha. No havia nenhum rudo estranho no monitor. Nada de anormal na cozinha. Encaminhou-se para o quarto de hspedes, onde ela costumava trabalhar na tese. Foi movido pelo instinto, pois no havia nenhum motivo que o levasse at l.
Talvez a vontade de estar num quarto onde ela estivera h pouco tempo. A porta estava fechada, como sempre. Notou que havia luz sob a fresta da porta. Escutou o rudo das teclas digitadas com rapidez.
Ergueu a mo para a fechadura, depois mudou de idia. O que iria dizer quando abrisse a porta? No tinha a menor idia. Sempre fora fcil conversar com ela, desde que a conhecia, contudo agora no era capaz de encontrar as palavras certas.
Suspirando, afastou-se da porta.
Em pouco tempo a porta abriu-se e ela apareceu, olhando-o com uma pergunta nos olhos e cortando sua fuga.
Marisa ostentava um sorriso nos olhos, o mesmo que Alec sempre via quando ela estava realmente determinada a fazer alguma coisa. Costumava usar esse artifcio com o Sargento.
	Pensei ter escutado alguma coisa. Faz tempo que est em casa?  indagou ela, retornando ao teclado.
	No. Acabei de chegar. O frango estava uma delcia.
	Quente  melhor ainda. Mas frio tambm  bom  disse ela em frente  tela, sem conseguir concentrar-se.
Se fosse agir segundo o bom senso, deveria recolher-se ao quarto e deix-la trabalhar, pensou Alec. Alm do mais, no se sentia  vontade ali. Em vez de sair percebeu que se aproximava da tela. Os monitores das babs eletrnicas encontravam-se um de cada lado do computador, para que ela pudesse intervir em qualquer emergncia. O que estava fazendo, ao cortar uma pessoa como essa de sua vida? Talvez estivesse mesmo ficando maluco, como Rex afirmara.
	Como vai indo o computador?  quis saber ele, dando-se conta de que depois da instalao no retornara mais.
	Est bem, e meu trabalho est quase pronto  informou ela, com um sorriso.
Alec mal a vira nos ltimos quinze dias, mas sua tese progredia. O supervisor estava contente com o trabalho realizado. Ao que parecia, todos estavam contentes com ela, inclusive o filho. A no ser a nica pessoa que realmente importava.
No queria que ele percebesse a mgoa que sentia, mas acreditava que Alec j percebera.
	E mesmo?
	. Isso  timo, porque o prazo final estava me incomodando muito. Agora estou quase no fim. Vou ficar muito contente quando terminar. Tudo.
	Tudo?  repetiu ele, incerto- sobre o significado.
	Essa loucura de ir para a aula e ficar correndo com o trabalho. Vou me formar em menos de um ms, agora. Desde que aprovem minha tese  concluiu, com um olhar incerto.
Alec no estava acostumado a perceber insegurana nela.
	Vo aprovar, no se preocupe.
	Como  que voc sabe? Pode ser um lixo  disse Marisa, fixando a tela com a testa franzida.
Talvez fosse melhor encerrar por aquela noite.
	Nada em que voc coloca as mos  lixo.
Ela sorriu, ciente de que ele nem sabia o que dizia. Se no queria aceitar os sentimentos que ela pressentira no beijo, como poderia acreditar nas coisas que ele dissesse?
	No sei, no.
Saiu do editor de texto e aos poucos a tela preencheu-se com a imagem do filho, que lentamente se transformava na dela. Em pouco tempo o sorriso estava no monitor, mas no no rosto de Marisa.
	Quer que eu leia seu trabalho?  ofereceu ele.  Posso dar minha opinio sincera depois.
Ela no foi capaz de evitar um brilho acusador no olhar. Ento, de repente, depois de ficar ausente de casa e de todos os assuntos domsticos, ele arranjava tempo para interessar-se pelo seu trabalho?
	Onde voc vai arranjar tempo?
	Talvez eu possa arranjar uma brecha  respondeu ele, percebendo o tom irritado dela.
	No precisa se dar a todo esse trabalho, obrigada. Afinal, voc  um homem muito ocupado, e eu sempre fiz tudo sozinha.
Ela parecia distante e desinteressada dele. Tambm, depois da ausncia proposital, o que poderia esperar? Queria que ela permanecesse amistosa e interessada?
	O que pretende quando se formar?
Marisa pensara muito sobre aquilo. Agora possua mais clareza para planejar o futuro do que antes. No precisava depender de ningum.
	Vou procurar trabalho. J tenho algumas propostas. Existe uma clnica que gostou do meu currculo. Se eu gostar do lugar, talvez aceite um emprego l.
	Voc vai trabalhar em perodo integral? Ela assentiu.
	Vou poder alugar meu prprio apartamento outra vez. Christopher vai ter um lar de verdade. No se preocupe, no vou sair antes de arranjar algum para ficar no meu lugar  acrescentou ela, compreendendo a preocupao dele.
Alec sentiu-se como um homem subitamente imerso em gua gelada.
	Acho que  melhor eu voltar a programar algumas entrevistas.
	 melhor, mesmo  respondeu ela, com voz tensa. Ele no sabia o que fazer. S sabia que no podia
ficar ali, plantado, como um idiota.
	Bem, acho que vou dormir para deixar voc trabalhar. Vejo voc de manh.
	At amanh  murmurou ela em resposta. Depois que escutou a porta fechar-se atrs dela, completou em voz baixa:  Seu idiota!
Ele tinha razo.
Foi mesmo mais uma noite sem dormir. Quando sonhou, era sempre com Marisa. O mesmo sonho, ela se afastando dele devagar. Por mais que corresse no conseguiria alcan-la.
Tudo o que precisava fazer era uma determinada coisa. No sabia o que era, mas se fizesse, tinha certeza que ela voltaria. Tanto dormindo quanto acordado, no conseguia realizar seu desejo.
Assim foi a noite inteira. A cada vez que fechava os olhos e adormecia, o sonho repetia-se.
Quando acordou, raciocinou que seria bom acostumar-se. Iria acontecer em pouco tempo.
Na vida real.
Alec estava no meio da apresentao que conduzia no perodo da tarde, quando resolveu, de repente, que no precisava se acostumar a coisa nenhuma. No queria acostumar-se.
No queria viver sem Marisa.
A compreenso de que ele era o maior tolo que j caminhara na face da Terra caiu como uma rocha em sua cabea. Foi apanhado no meio de uma frase.
Olhou de Rex para Joe, sem enxergar nenhum dos outros assistentes acomodados na sala de reunies. Sabia o que tinha de fazer naquele momento.
	Preciso sair  anunciou, recuando da tela enorme usada para demonstrar o programa.
Rex trocou olhares com Joe, que parecia surpreso. Mas sorria.
	O que disse?  quis saber Joe.
Alec relanceou os olhos por suas notas sobre a escrivaninha, depois decidiu deix-las onde estavam. Seriam teis a Rex para terminar o restante da apresentao. Olhou para o relgio, embora fizesse menos de um minuto que realizara o mesmo gesto.
	Eu disse que preciso sair. Tenho uma aula com Andrea.
	Agora? Alec, estamos no meio de uma reunio, e no sei se voc sabe, mas  voc quem est fazendo a apresentao do programa.
	No  nada que no possam fazer sem minha presena  declarou Alec, olhando para Rex em busca de apoio.
	Pode deixar que a gente resolve sem voc. V de uma vez. J no era sem tempo, homem!
Alec no chegou a responder. Mal escutou a frase e saiu da sala na direo do elevador.
Tinha quinze minutos para chegar  aula.
Acabou levando vinte. Mesmo assim, teve de ficar observando o retrovisor para ver se era perseguido pela polcia, porque ultrapassara quase todos os limites de velocidade. Iria alegar que era caso de vida ou morte.
No havia lugar para estacionar quando chegou, portanto parou na porta da frente, saiu do carro e subiu as escadas. Ainda correndo, abriu a porta da sala de aula e entrou, atraindo a ateno de pais e bebs.
Marisa girou nos calcanhares. Quando deparou com ele, seu primeiro pensamento foi de que algo no corria bem. Mas no poderia estar relacionado s crianas, que estavam com ela. No conseguiu atinar com nenhum outro motivo. Alec entrando, vestido como se estivesse numa reunio de negcios? O que poderia significar?
Antes que tivesse a chance de perguntar, Alec chegou ao lado dela.
	Com licena  pediu ele  aluna com quem a professora estivera conversando.  Preciso falar com Marisa.
A mulher encarou-o com uma expresso surpresa e divertida. Marisa tornou-se consciente de que todos os pares de olhos estavam postos nela. Foi arrastada para fora.
	Alguma coisa errada, Alec?
	Como assim? Claro que existe alguma coisa errada. Para comear, detesto fazer entrevistas.
Marisa deixou pender o queixo. Ser que ele finalmente ficara maluco de verdade?
	Voc me arrastou para fora da aula s para me dizer isso?
Ela ficou indecisa entre dar um tapa no rosto dele ou apenas virar as costas para ir embora. Lutou para manter a calma. Nunca ficara nervosa assim at aquele sujeito se meter em sua vida. Deixou escapar o ar de uma vez, controlando o desejo de dizer exatamente o que pensava.
	Eu ajudo voc, est bem assim?
Ela virou-se para voltar  aula, apenas para que o brao dele a girasse de volta.
	No, no est nada bem.
O que ele queria? Sugar seu sangue?
	Ento eu fao as entrevistas para voc. Agora posso voltar para a minha aula?
	No. Se quiser ajudar mesmo, no v embora. Alec era mesmo um sujeito egosta. Como poderia
ter sido to cega a ponto de apaixonar-se por aquele homem? Ele no se importava com sentimentos, s com as prprias convenincias.
	Quer que eu continue sendo a bab de Andrea,  isso?
Alec, em vez de responder, pilhou-se a admir-la em toda a plenitude de sua raiva. Ficava resplandecente.
	No.
	Ento o que voc quer? Me ajude um pouco, Alec. O que voc quer?
	Voc.
Por um instante ela estremeceu, desejando acima de tudo acreditar nele. Sabia que seria um erro se acreditasse. Ele no tinha aquela inteno. S desejava a presena dela na casa, tornando a vida mais fcil e confortvel.
	Acho que  um pouco tarde para isso, Alec. Se no percebeu, e no deve mesmo ter percebido porque nem vai para casa mais, eu fui obrigada a abafar meus sentimentos. Estou quase conseguindo. Tenho uma vida para construir. Duas, na verdade, a minha e a de Christopher. Devo a ele um futuro melhor do que
o meu.
Sem suportar mais, Alec ergueu as mos para toc-la. Marisa sacudiu os ombros. Ele insistiu, com delicadeza, resolvido a no desistir com facilidade.
	Sei disso. Mas no estou pedindo que desista de sua carreira, Marisa. S estava esperando que pudesse combinar as duas coisas.
	Como assim? Est querendo que eu seja psicloga infantil e bab ao mesmo tempo? Eu no...
	Espere um pouco  interrompeu ele.  No foi isso o que eu quis dizer. Quero que seja psicloga e esposa ao mesmo tempo.
	Sei que essas entrevistas so... esposa? De quem? S ento o sentido das palavras a atingiu. Pouco
antes da resposta dele.
	Minha esposa, Marisa.
Como assim? Ele passara o tempo inteiro dizendo que nada poderia acontecer entre eles, agora vinha com essa.
	Como posso ser sua esposa?
	Bem, em primeiro lugar eles fazem testes de sangue, e depois temos os...
	Voc no me pediu.
	Estou pedindo agora.
	Sem mais nem menos?  provocou ela.
	No. Depois de pensar muito e sofrer muito, infelizmente. Para dizer a verdade acho que andei perdendo tempo, isso sim.
	Puxa, voc faz qualquer coisa para escapar de uma entrevista, hein?
Alec no queria mais brincar. Sua expresso era sria quando a encarou.
	No. Fao qualquer coisa para ficar com voc. No quero perder voc, como quase perdi. Marisa, voc tem todo o direito de recusar, mas espero que aceite.
	Posso fazer uma pergunta antes?
	Claro.
	Voc no tem mais medo?  quis saber ela, tentando penetrar o olhar de Alec.  No tem mais medo do que est l na frente?
	Quer saber a verdade?  Ela fez que sim com a cabea.  Tenho medo. S que tenho mais medo de ficar sem voc. Como sempre, voc tinha razo.
Ela sabia, mas precisava escutar isso da boca de Alec.
	Sobre?
	Sobre ter um pouco de alguma coisa maravilhosa ser muito melhor do que no ter nada o tempo todo. Eu simplesmente comecei a pensar como seria minha vida sem voc. No porque fico todo o tempo no trabalho, mas porque voc no estaria em casa quando eu chegasse. Essa  a idia que no posso suportar.
	Que nada, acho que voc iria acabar se acostumando.
	O problema  que no quero me acostumar a ficar sem voc  afirmou, beijando-lhe a testa.  J me acostumei  sua presena. Detesto mudanas e surpresas. Quero voc para sempre na minha vida, Marisa. E na de Andrea. Amo voc e quero que case comigo. Quero que voc e Christopher vivam comigo e com Andrea.
Uma famlia dela mesma. De verdade. Completa em todos os pontos. No poderia ser melhor do que isso.
	Quando?
	Que tal no dia da formatura?  sugeriu ele, beijando o pescoo dela.  Assim ns dois teremos algo para comemorar. Voc ganha seu diploma, e eu ganho voc.
	Falando assim, parece que est pronto para assumir um compromisso e tanto.
	J assumi. Am-la enquanto voc deixar  afirmou ele, fitando-a.
	Nesse caso, acho que ns dois estamos encrencados a longo prazo.  Ela sorriu.
	E exatamente o que eu espero.
Alec no conseguiu controlar-se mais. Beijou-a ali mesmo.

FIM
DICAS
PARA RESOLVER PROBLEMAS DE SONO
Mamadas Noturnas
	Com seis meses, os bebes podem dormir direto a noite toda, mas alguns se habituam ao esquema de acordar para mamar. Se voc quiser que o seu beb deixe de mamar  noite, comece a reduzir as mamadas de uma em uma e depois pare de d-las, mas fique perto dele, procurando acalm-lo enquanto ele continuar chorando.
	Na hora da mamada noturna, no deixe o bebe dormir com o bico do seio ou da mamadeira na boca. Ele vai ter de aprender a adormecer sem a suco para faz-lo relaxar. Assim que as plpebras do beb se fecharem, afaste-o do bico. Aconchegue-o no bero sob as cobertas.
	Por algumas noites, d-lhe a mamada quando ele acordar, mas reduza a medida. Ponha-o de volta no bero, dormindo ou no, beije-o e saia.
	Se voc estiver dando o seio, seu marido ter de ajud-la a interromper a mamada, pois, enquanto sentir o cheiro do leite, o beb vai querer seguir mamando. Se comear a chorar, espere cinco minutos e d tapinhas nas pernas dele e faa carinhos para acalm-lo. Volte para sua cama, mesmo que ele ainda esteja chorando.
 Volte a aparecer no quarto a cada cinco minutos. Pegue-o apenas se ele estiver fora de si de tanto chorar. Quando o choro acalmar, ponha-o de novo no bero e deixe-o por alguns minutos mais. Talvez leve algumas horas nisso, mas no desista.


MAME FERRARELLA mora no sul da Califrnia. Descreve a si mesma como a me cansada de duas crianas superenergticas e esposa satisfeita de um homem maravilhoso. Essa ganhadora do prmio RITA est adorando ter realizado seu sonho de escrever em tempo integral.
